Um catador de memórias e um presidente que se vai

Sobre os documentários PRA FICAR NA HISTÓRIA e THE FINAL YEAR

O documentário PRA FICAR NA HISTÓRIA, em cartaz no Rio na Cinemateca do MAM (veja horários no final), é um cartão de visita do colecionador gaúcho Luís Henrique Fitarelli. Na cidade de Garibaldi, na Serra Gaúcha, esse neto de italianos, veterinário por profissão e polenteiro por prazer, há mais de 30 anos se dedica a pesquisar, comprar e restaurar memorabilia e artefatos da imigração italiana no Brasil. Parte do enorme acervo é destinada ao seu projeto de museu etnográfico. O que possui menor valor histórico ele vende no seu antiquário.

Através de Fitarelli, o filme abre uma fresta para o progressivo apagamento de uma herança cultural. Casas que são demolidas, móveis e objetos deixados ao léu, tudo lhe atrai o interesse. As câmeras o acompanham à Itália para recolher pistas e visitar um museu italiano da imigração para o Brasil. Fitarelli parece exercer certa liderança num segmento da colônia italiana na região, e seu trabalho é alvo de admiração geral. Por isso causa espanto a entrada em cena de uma veneranda professora que subitamente coloca o seu discurso em xeque.

Essa mulher extremamente crítica e cética em relação ao papel dos museus (“são uma farsa do passado”) introduz temas inesperados – e bem-vindos no clima de banho-maria do filme. Entre eles, o papel da igreja no recrutamento de fascistas à época da imigração, a suposta vocação dos colonos para a bajulação e a desimportância dos imigrantes pobres para a memória histórica. “Só quando enriqueceram é que começaram a ganhar medalhinhas”, atira.

São momentos de vivacidade que faltam à maior parte do documentário. Sem menosprezar a importância do universo apresentado, nem os cuidados com a imagem e o som, o filme carece de maior dinâmica e deixa à mostra que é um curta-metragem (de 2015) estendido para 71 minutos. Em decisão discutível, o diretor Boca Migotto (do interessante Filme sobre um Bom Fim) se insere na narrativa para mostrar cenas de seus filmes anteriores que, como Fitarelli, levantam histórias sobre o Sul profundo. Mas não é fácil fazer o que Agnès Varda fez em Os Catadores e Eu.

O filme está sendo exibido em várias cidades gaúchas e, no Rio, na Cinemateca do MAM nos seguintes horários: 12/3 (seg), às 14h; 13/3 (ter) e 14/3 (qua), às 19h.


Está no Netflix o documentário THE FINAL YEAR, de Greg Barker, sobre as ações diplomáticas de Barack Obama durante o último ano do seu mandato. Num formato que mescla a observação consentida com o depoimento direto, o filme segue os passos não só do presidente, mas também do Secretário de Estado John Kerry, da embaixadora dos EUA na ONU Samantha Power e do assistente estratégico e redator de discursos Ben Rhodes. E não foram poucos os passos.

Disposto a deixar uma marca mais condizente com o Prêmio Nobel da Paz que ganhou em 2009 – e reduzir danos causados pelo seu próprio governo –, Obama fez visitas de reparação a Hiroshima e ao Laos, e colocou seu staff na linha de frente de quase todos os grandes conflitos e disputas correntes no planeta. Eles enfrentaram, principalmente, o dilema entre comandar uma intervenção militar na Síria e não repetir erros cometidos no Iraque e no Afeganistão. Selaram a reaproximação com Cuba e o Irã. Solidarizaram-se com as vítimas do Boko Haram na Nigéria. Pisaram em ovos nas relações com a China e a Rússia de Putin sem conseguir evitar o esboçar-se de uma nova e ainda surda guerra fria.

Obama foi certamente o mais admirado e ponderado presidente da história recente dos EUA, sempre procurando uma forma de conciliar os famosos “interesses americanos” com a busca de um mundo menos agressivo e intolerante. Prova disso é que, à sua saída, a presença militar americana no exterior era dez vezes menor que na época de sua posse (fonte: BBC). O filme não destaca a resistência que essa opção sofreu da linha dura e da opinião pública americana, mas aí está certamente uma das razões que levaram à desastrosa vitória de Trump em 2016.

É com essas imagens de estupor e desencanto que termina THE FINAL YEAR. O mundo parecia entrar numa espiral de retrocesso que só faria se confirmar desde então. Mas antes disso o filme destaca também algumas desavenças dentro da própria equipe de governo, deixando claro que, apesar da liderança incontestável do presidente, nada ali era monolítico. De resto, Greg Barker faz um enorme esforço de síntese audiovisual para dar conta do ritmo frenético de dezenas de viagens, encontros, reuniões e desabafos pessoais.

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