Festival do Rio: “Terra Estrangeira”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

O clássico de Walter Salles e Daniela Thomas, que impulsionou a Retomada do Cinema Brasileiro, tem uma exibição especial da versão recém-restaurada em 4K hoje (sábado, 11/12, às 19h30, no Estação Net Botafogo 1). Publico abaixo a resenha que fiz do lançamento no Jornal do Brasil, em novembro de 1995.

Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques. Não apenas linguísticos, mas também sotaques cinematográficos. No princípio, é um  drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se descolam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas “línguas” se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens. Walter Salles e Daniela Thomas fizeram o melhor filme brasileiro sobre o sentimento do exílio. Não mais o político, circunstancial, mas o exílio das almas perdidas, da desorientação juvenil. Coisa de fado. Vontade de mar.

Entre um Brasil vilipendiado, um Portugal encalhado e uma Espanha meramente sonhada, resta a Paco e Alex somente a terra do cinema, esse fim-de-mundo sem raízes onde se pode deslizar à vontade e trocar de gênero como quem troca de estrada. Eles são crianças que saem de casa para brincar de adultos no país do cinema, empunhar armas, correr perigo e fazer poesia ao mesmo tempo. Em lugar da clássica rebeldia, apenas o abandono, uma vaga disposição para “enfrentar a ira do trovão”. Igualados em suas perdas e na sensação de não pertencer a lugar nenhum, Paco e Alex têm o movimento contínuo como único destino. São puro cinema, sem lenço nem passaporte. Como os dois diretores, cujas carreiras os levam constantemente de um lado para o outro do mundo.

Aqui um sotaque de teatro, ali um acento de videoarte. Terra Estrangeira fala os diversos idiomas do cinema contemporâneo com uma  “pronúncia” geralmente correta. Articula dicções e referências de pessoas de três continentes naquilo que existe de comum entre todas: a busca de um encontro e de um lugar para ser feliz. Descontados uns poucos excessos de pretensão, é filme para ser cultuado em sua liberdade, polifonia e  estética impecável. Jovem e lírico sem abdicar da inteligência, não deixa dúvidas de que foi feito com prazer e para o prazer.

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