Festival do Rio: “O Livro dos Prazeres”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Clarice Lispector inicia o romance Um Aprendizado ou O Livro dos Prazeres com uma vírgula e o conclui com dois pontos. Indicação clara de que se trata do relato de uma transição. A transição de uma mulher entre o casulo do medo e a afirmação de si no mundo. Um romance de formação, por assim dizer. Mas à maneira de Clarice – circunspecta, dolorida, fugaz.

Para dizer isso no cinema, a materialidade das formas precisa transmitir um mundo interior para além das palavras. Marcela Lordy bem que tenta fazer isso em O Livro dos Prazeres, mas a empreitada não é fácil. Lá estão Simone Spoladore e o argentino Javier Drolas como os protagonistas de nomes míticos, Lorelei (ou Lóri) e Ulisses.

Lóri é uma professora que tenta infundir conceitos existencialistas nos seus alunos do primeiro ano do ensino fundamental. Ela parece mesmo viver à margem da realidade. Tem encontros sexuais casuais com homens e com mulheres, mas não se considera uma amante por não amar ninguém. Vivencia solidão e melancolia. Até que conhece Ulisses, professor de Filosofia cheio de empáfia, mas que desperta nela alguma coisa desconhecida.

O entrecho do romance foi “atualizado” para a era da não binaridade sexual e do governo federal protofascista em vigor. Clarice, porém, infiltra-se por diversos canais. O apartamento herdado por Lóri da mãe fica na Praia do Leme, muito próximo de onde a escritora morou grande parte de sua vida. Entre os guardados da mãe aparece uma foto de Clarice, sugerindo que Lóri seria sua filha. O hábito de maquiar-se pesadamente teria sido, portanto, também herdado da mãe.

Tudo o que gira em torno de Lóri/Simone transmite a fria intensidade da personagem, numa escalação mais que perfeita. Os problemas aparecem na relação com terceiros, e especialmente com Ulisses. Os diálogos soam duros e um tanto óbvios, porque destituídos do enredamento de ideias que fazem o estilo de Clarice. A pouca expressividade do ator argentino tampouco colabora para tornar plausível a química que gradualmente conquista a confiança e o amor de Lóri.

Marcela Lordy parece buscar socorro no estilo, bem servida pela fotografia de Mauro Pinheiro Jr. Aqui e ali, tangencia um certo maneirismo, com o qual pretende preencher os vácuos de uma transposição muito difícil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s