Tata Amaral e a inocência do pai

Carimã

Tata Amaral e Jean-Claude Benardet

“Meu pai, imagina, não é um estelionatário!”, reage, com lágrimas nos olhos, Tata Amaral numa cena de seu novo documentário. A frase define sucintamente o que move O Rei do Carimã. É um doc em primeira pessoa, feito para reabilitar um membro da família.

Na verdade, o projeto de Tata nasceu da recente revelação, por um tio, de que seu pai (já falecido) havia sido rico na juventude e se refugiado no Mato Grosso. Ela decidiu, então, investigar o episódio na forma de um documentário de busca (conforme a classificação de Jean-Claude Bernardet para filmes como 33, de Kiko Goifman, e Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut).

A busca, nesse caso, se deu em dois níveis. De um lado, Tata conversou com parentes, advogados e pessoas ligadas ao comércio de algodão, ramo em que seu pai trabalhava nos anos 1940. Acabou descobrindo um processo por estelionato. Nos anais do processo, encontrou evidências de que seu pai fora vítima da intransigência de uma empresa americana. A decisão final foi de entrar com um recurso para “descondenar” post mortem Joaquim Amaral. 

Essa é a pesquisa objetiva. Paralelamente, Tata faz uma investigação subjetiva, auxiliada por Bernardet. A consultoria artística aqui desliza para uma espécie de psicanálise (da diretora e do filme). Onde entra a culpa? Qual é o objetivo íntimo do doc? Qual o seu significado moral? Assim, o filme registra tanto a busca por informações e evidências quanto as reações da cineasta, suas expectativas, sua dor, as argumentações tardias.

Perguntei a Tata se ela acha que terá valido a pena redimir publicamente o pai ao preço de divulgar um segredo recalcado por seus familiares. Ela me respondeu: “Achei que corria riscos em magoar meus tios, irmãos de meu pai e de minha mãe. Mas a leitura do processo deixou tão evidente sua inocência que era melhor levá-la a público. Na verdade, eu nunca duvidei da inocência de meu pai mas cheguei a duvidar de que conseguiria prová-la. O saldo foi extremamente positivo e o filme provocou um alívio na família”.

Tata Amaral  vai além da mera “lavagem de roupa suja” quando expõe não só um processo criminal, mas também a mecânica de um filme que não quer registrar a vida, e sim forjar na vida um novo capítulo. Para a nossa pequena tradição do doc pessoal, é uma obra original e sincera.

O Rei do Carimã foi realizado dentro do programa DOCTV e vai ao ar em agosto, na TV Cultura e TV Brasil.

9 comentários sobre “Tata Amaral e a inocência do pai

  1. Pingback: As vozes de Flávia « …rastros de carmattos

  2. Vi o documentário e achei brilhante a inicitiva de recuperar a imagem do pai, através de uma reparação jurídica. Vi também comentários sobre sua família “Toledo Piza”. Aqui em Mato Grosso, existe uma família com esse sobrenome, não sei se são parentes. Os conheci aqui em Cuiabá e numa cidade do interior Tesouro.

    • Olá Elio, obrigada pela mensagem.
      Que bom que gostou do documentário. Foi uma empreitada.
      Até onde eu sei, todo Toledo ou Piza no Brasil, descendem de um mesmo patriarca, Simão de Toledo Piza, que veio à São Paulo em 1640. Devem ser parentes sim mas é uma família numerosa. Todos são encontrados na árvore do site http://www.arquivoz.com.br dentre outras.

  3. Vi o documentário de Tata Amaral e fico muito feliz de saber que ela conseguiu limpar o nome do seu pai.Perdi o meu pai em novembro de 2010 e nunca na vida senti uma dor tão grande,por isso posso entender os motivos de Tata Amaral para mergulhar de cabeça nessa luta.Graças a Deus tudo deu certo e o filme está aí para que as pessoas possam ver o amor de uma filha para corrigir uma injustiça contra o seu pai.

    Neide

  4. Sou neta do Jaime Amaral, e moro no exterior. Como posso assistir ao vídeo pela Internet?? Meu avô não sabe como posso fazer isso… Obrigada

  5. Olá Jose. Que bom ler tua mensagem neste blog e saber que é de Lins. De certo deve se lembrar dos cinemas de lá. Eram gerenciados pelo meu avô, Joaquim do Amaral Jr.

    Obrigada pelas palavras.

    • Vi sua entrevista no programa do Ronnie e fiquei feliz em saber que em janeiro vai iniciar filmagens. Se tiver alguma oportunidade de assistir a filmagem de alguma cena, gostaria muito. É só me enviar por e-mail o local e hora que estarei por lá.Qto. aos cinemas de Lins, o meu avô me parece foi o fundador do Cine São Sebastião, depois vendido para os Peduttis. O cine Lins fui poucas vezes, pois logo me mudei para S.Paulo com a familia. Tata se vc. tiver nos achados e perdidos seus alguma foto dos cinemas ou da cidade de Lins (antiga) por favor me envie, ficarei eternamente grato. Que seu novo flime tenha muito sucesso de publico e bilheteria. Fiquei teu fã. Abraço Mendes

  6. Ontem, 07/8 assisti ao documentario o qual muito me emocionou em ver a decisão firme de proceder ação para absolvição de seu pai. Meu interesse e minha atenção ficaram maior qdo. descobri que o personagem principal viveu em minha terra natal, Lins-SP e as conhecidências não param por ai, pois trabalhei em uma multi-nacional italiana que fabricava Rayon e Fiocco e se utilizava dessa parte ou fiapos do caroço de algodão. Na época essa MP é comprada da SANBRA (Soc. Algodoeira do Nordeste Brasileiro). Por tudo que foi apresentado e pela forma feita do documentario parabenizo Tata Amaral. Alerto ainda que essa estoria daria um excelente filme “Mistério-Policial”.

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