Niterói respira cinema

Começa hoje (sexta) a oitava edição do Araribóia Cine-Festival de Niterói. À frente, como sempre, a dinâmica e queridíssima Tetê Mattos (atenção, não somos da mesma família). O Araribóia leva para o outro lado da baía uma mostra competitiva e uma informativa de curtas centrados no tema “Retratos”. Confira a programação no site do festival.

Como todo ano, é homenageado um cineasta que tenha alguma relação com a cidade. Dessa vez, a honraria cabe a Ricardo Miranda, com uma seleção de filmes dirigidos e montados por ele. Destaque para o curta inédito Palavra Exata.

A pedido de Tetê, escrevi o seguinte texto sobre Ricardo Miranda para o jornal do festival:

Ricardo Miranda, afeto e invenção

Esta edição do Arariboia Cine presta homenagem a Ricardo Miranda e apresenta a estreia de seu último filme, Palavra Exata. No centro desse curta está o irmão de Ricardo, o artista plástico Ronaldo Miranda. Na verdade, estão os dois, já que as memórias do cineasta se imbricam às coisas do pintor, o irmão mais velho que teve papel importante na formação de Ricardo.

Palavra Exata é apenas o último – e talvez o mais explícito – opus de uma obra nutrida pelo afeto. Esse é o caminho preferido das criações de Ricardo Miranda. O afeto é que o leva a interessar-se pelo pensamento e a obra de gente como Paulo César Saraceni (A Etnografia da Amizade), Luiz Rosemberg Filho (Bricolage), Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, José Mojica Marins etc. Ricardo precisa imantar-se afetivamente para adquirir a liberdade de tocar na vida e na obra de quem quer que seja.

O mesmo acontece nos trabalhos de montagem desse que é um dos mais conceituados e premiados profissionais da área. Ricardo Miranda entrou no cinema pela moviola e, a partir de 1969, estabeleceu-se como um dos montadores preferidos daquilo que Jairo Ferreira chamava de “cinema de invenção”. Glauber Rocha o chamou para dar a forma final de A Idade da Terra. Arthur Omar dividiu com ele o último corte de boa parte de sua obra. Ele montou, ainda, filmes de Saraceni, Ivan Cardoso, David Neves, Vladimir Carvalho, Manfredo Caldas e Beth Formaggini. A Glauber voltou recentemente, editando os documentários que aparecem como extras dos DVDs de Terra em Transe, A Idade da Terra e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Seu trabalho em Anabazys, de Joel Pizzini e Paloma Rocha, ganhou o prêmio de montagem do Festival de Brasília. Em breve, chegam às telas A Canção de Baal, de Helena Ignez, e O Gerente, de Saraceni, outros exemplos da montagem de invenção característica de Ricardo Miranda. 

Quando dirige, Ricardo, naturalmente, não perde a perspectiva do montador. Para ele, roteiro, filmagem e edição integram uma espécie de fluxo único, perpassado pelo desejo de experimentação. Daí que só ultimamente ele aceitou dividir esse trabalho, no caso com a montadora Joana Collier. “Só à Joana permito meter a mão nos meus filmes”, diz. “Temos uma identidade de olhar e uma compreensão parecida do papel da montagem”.

Embora tenha trabalhos de pura ficção, como o longa Assim na Tela como no Céu (em que o inferno aparecia equipado com ilhas de edição!), Ricardo Miranda tem exercitado seus talentos principalmente na área dos documentários. Além dos filmes sobre personalidades já citadas, ele tematizou o pensamento de críticos de cinema (O Presidente do Mundo, sobre Almeida Salles, e Território Crítico, sobre Jean-Claude Bernardet) e questões mais amplas sobre o povo brasileiro (o longa Descobrir e a série Mesa Brasileira).

Documentário e ficção, segundo Ricardo, não são campos tão estanques quanto o senso comum teima em acreditar. “O documentário precisa passar por uma dramaturgia e uma visualidade que são comumente associadas à ficção. Como o Arthur Omar, também sou ligado nas noções eisensteinianas de emoção e êxtase. Não posso passar sem isso”, afirma.

Aos 59 anos, repartindo seu tempo fixo entre a realização de interprogramas para a TV Brasil e aulas de montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Ricardo Miranda segue espalhando suas lições de ousadia e autoralidade. O cinema brasileiro deve a ele o reconhecimento que o Arariboia Cine muito oportunamente se encarrega de evidenciar.

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