Sérgio Borges defende convicções estéticas

Ainda um comentário que vale destacar no debate deflagrado aqui em torno do jovem cinema brasileiro. Dessa vez, é o cineasta mineiro Sérgio Borges, que dirigiu O Céu sobre os Ombros, eleito melhor filme do último Festival de Brasília:

Carlos,

Acho a sua posição importante.

Realmente os jovens realizadores brasileiros, dito autorais, tem que ter a percepção de que, se existe um cenário por aqui que traz singularidades e até novidades, esse cenário é incipiente, heterogêneo e precisa ser desenvolvido sem oba-oba e sem a vaidade ser maior do que os resultados (os filmes).

Apesar de ter realizado meu primeiro curta em 1998 (não sou tão novato assim), nenhum deles teve um destaque que chegasse perto do que O Céu sobre os Ombros, meu primeiro longa conseguiu. Então, a minha relação com a crítica, com os olhares sobre o meu trabalho é bem recente.

Vejo com interesse e curiosidade as reações adversas que começaram a ocorrer, de questionamento ao “novíssimo cinema brasileiro” (termo associado às produções como as do meu filme) desde Brasília, quando parece que uma instituição mais “relevante” legitimou essa produção. Talvez os questionamentos fossem anteriores, e essa impressão só tenha me acontecido, porque foi a partir daí que eu me envolvi. Mas acho que só começaram a relativizar a importância desse grupo de filmes/geração/movimento quando a imprensa/mídia/crítica/público mais ampla, menos guetificada passou a levar em conta que esses filmes existiam. Então, pra começar, esses filmes, essa geração, já estava produzindo antes, e exibindo seus filmes antes. Foram vocês (te coloco no meio disso Carlos) que passaram a dar mais importância (no meu modo de ver, merecidamente) para essa produção. Foi algo natural, a acredito que assim o foi, pela relevância dos filmes. Foi uma conquista dos filmes, e não uma estratégia obscura de seus realizadores.

Daqui do meu lugar, Belo horizonte, fazendo parte de um coletivo de realizadores, a TEIA, que completa 10 anos de existência no fim do ano, vejo a repercussão positiva desse cinema (feito com equipes menores e com menos hierarquias, feito de forma mais barata, feito a partir da fricção entre real e ficção, feito sem seguir a lógica narrativa hegemônica, etc…) com muito entusiasmo. O meu desejo de fazer filmes ia além da impossibilidade que o sistema de produção brasileira me indicava. Fui favorecido pelo surgimento das ilhas de edição caseiras e das câmeras digitais. Fiquei realmente confortado quando me dei conta de que em outros estados brasileiros (Ceará, Pernambuco, Rio, São Paulo, Paraíba…) haviam outras pessoas e grupos produzindo como a gente aqui. E ainda mais pertencente a uma geração, quando me dei conta que esse fenômeno é mundial. Que nas Filipinas, na Coréia, Portugal, Argentina, México, Chile, Tailândia, Romênia, e por aí vai, surgiam esquemas de produção e formas narrativas diversas da hegemônica, que ganhavam legitimidade e melhor, chegavam até mim. Acho que mais do que tudo, uma nova voz surgiu na cena audiovisual brasileira. Não acho que essa voz queira ser considerada genial, mavericks inventivos, muito menos queira desmerecer outros realizadores e outras formas de narração. Essa voz quer contar que também está presente no cinema brasileiro, que é possível fazer filmes dentro de um outro sistema, com outra lógica. Essa voz quer dizer também que ela não é um grito solitário no deserto. Daí talvez venha a importância de se dizer de afetividade, vida, rede. Não sei se você se dá conta Carlos, de quão especial é termos pares nessa vida no pequeno mundo do cinema brasileiro. E o cinema? Talvez, em uma análise mais contundente, realmente não sejam muito os filmes que se sustentem para gregos e troianos. Mas me parece novo, o fato de termos algumas dezenas de jovens realizadores ao menos esboçando algo interessante. Ainda mais se levarmos em conta que a grande maioria está fazendo seu primeiro longa. Acho que esse é o ponto a ser valorizado. Inclusive porque essa produção é diversa.

Percebi que vc tem um questionamento sobre a forma narrativa dos filmes tb (sobre a homogeneidade desss forma nesse grupo – um questionamento muito justo, diga-se de passagem) Particularmente acredito que o potencial expressivo do audiovisual é muito maior do que a forma (cinema industrial americano/telenovela brasileira) que o cinema brasileiro em sua enorme maioria produziu pós cinema novo. Os filmes que mais me comovem, transformam, reformam passam por uma relação mais complexa filme/espectador, com mais lacunas, para espectadores mais ativos. Apesar, disso, sei dar o devido valor a filmes que “contam uma história” de forma mais convencional. É preciso acreditar no filme que se vê. o cinema tem como característica expressiva se confundir com a vida, para quem o assiste. Hoje em dia, é difícil para mim acreditar em certos filmes, em ter essa relação. Vejo muitas vezes pequenos teatros feitos a partir de textos de roteiristas querendo trazer uma mensagem (humanista, ou moral, ou revolucionária, não importa) e não acredito neles. Mas isso é o meu caso, o meu olhar. E acho que exibir esses filmes para públicos diversos faz parte de um trabalho de longo prazo para formar público para o cinema, visto que a formação audiovisual brasileira vem da TV e de sua lógica de consumo. Não subestimo o público e tenho visto ótimos resultados, ao menos com o meu filme. Daqui a um ano saberei ainda mais. Mas tenho que ter noção do potencial de público do meu filme, e sei que é segmentado. Mas é curioso, porque acredito muito que o potêncial de público do Céu sobre os Ombros é maior que o circuito de festivais. E acho que as salas de shoppings já tem um público viciado. Sonho com outros circuitos de exibição no Brasil (universitário, Cine Mais Cultura), mas ainda acho que se meu filme for visto por 10 mil pessoas no cinema, o custo benefício (já que ele custou 150 mil) será melhor que o de um filme de 4 milhões visto por 200 mil pessoas. Eu tenho feito um esforço político e me mobilizando para criar condições de filmes “menores” poderem ser realizados e exibidos no Brasil.

De forma nenhuma acredito em autocontentamento com filmes baratos e sem rumo. Acho o “sem rumo” maldade (ou falta de sensibilidade) de sua parte com vários filmes. Não quero pertencer ao gueto do barato e autoral, mas não vou abandonar minhas convicções estéticas pelo sucesso no mercado. Fico realmente feliz em ver você ou o Sílvio Da Rin em um debate de jovens realizadores domingo de tarde no Rio. Mas fico com a impressão que para vcs, ainda somos um bando de amadores que precisam dar um salto de qualidade (como o Sílvio disse). Acho que não é bem assim. Quanto a jovem crítica, a minha impressão é de que ela dispõe de mais subsídios para ver os filmes, e não está formando uma panelinha que legitima esses filmes. Fábio Andrade é persona não grata de muitos realizadores, por exemplo, por criticar os filmes. Eu inclusive acho que muitas vezes eles pegam pesado demais e são muito pouco generosos com os filmes. Não acho que paternalismo seja bom, mas acho legal incentivar os novos realizadores apontando possíveis virtudes.

O seu olhar sobre essa cena me faz perceber que, se queremos nos dizer partícipes da cena cinematográfica brasileira, temos que responder sim a todos, e não só a nossos pares. Acho realmente saudável a sua crítica. Acho que entre esses novos realizadores, existe algo que os une, mas também cada filme e cada realizador deve responder por seus filmes e suas palavras. Acho que não estamos mesmo com essa bola toda. Mas estamos participando do jogo sim. Com direito a opiniões, críticas, e com muita gente querendo nos assistir. Não vi evasão de sala no meu filme, e acho Pacific um filme incrível, mesmo com grande evasão de público. É bom entender se há um erro de modulação nessa nova voz. Sua crítica me faz pensar nisso. Grande abraço.

Sérgio Borges

Minha resposta:

Caro Sergio, obrigado por participar dessa conversa. Apesar de uma ou outra discordância em relação ao peso das palavras, acho que pensamos o mesmo. A exaustão da narrativa convencional leva a uma cada vez mais difícil originalidade, embora eu não veja em nenhum tipo de cinema algo em que se deva “acreditar”. Algo de muito importante está ocorrendo nessa nova cena do cinema brasileiro, o que não significa que viramos uma página na história. E mesmo esses filmes “pequenos”, “livres” e descompromissados com o Mercado precisam estabelecer certos níveis de diálogo para não caírem no autismo. Estamos de acordo em tudo isso.

Quando resolvi responder ao artigo do Felipe Bragança, foi justamente por incidir sobre o leitor médio da grande imprensa, que vem recebendo uma visão pouco apurada dessa cena cinematográfica. São informações soltas, rasas, que geram mais preconceito que um germe de aceitação. Brados de vitória e manifestações de desprezo pelo passado recente tampouco contribuem para o entendimento da riqueza impura do momento.

Espero em breve rever O Céu sobre os Ombros para rever a impressão bastante ambígua que tive numa primeira visão em Tiradentes.

Um abraço e volte sempre
Carlos    

2 comentários sobre “Sérgio Borges defende convicções estéticas

  1. O que mais me chamou a atenção de toda a resposta do Sérgio é a relação ambígua dele com o que ele espera espera da crítica: “Eu inclusive acho que muitas vezes eles pegam pesado demais e são muito pouco generosos com os filmes. Não acho que paternalismo seja bom, mas acho legal incentivar os novos realizadores apontando possíveis virtudes.”
    Não se trata de incentivar ou não, destruir ou não, desmistificar ou não a produção dos jovens realizadores, mas sim do corpo a corpo com os filmes para daí tirar uma conclusão crítica. O caminho crítico é o inverso. E, parafraseando o Sérgio, o crítico não deve abrir mãos do que acredita para responder às demandas da cinematografia.

  2. Ok, Carlos.

    Grato pelo espaço de diálogo.
    Essa não é uma conversa que começa aqui e está longe de terminar.
    Vamos continuá-la por aqui e por outros espaços.
    Sei que vc está atento a essa cena, e acho isso muito importante. E o crítico, o jornalista realmente deve imergir naquilo sobre o que vai falar, ainda mais se tratando de uma suposta cena. Se fossemos entrar aqui no mérito da qualidade do jornalismo cultural… vc deve saber melhor do que eu…

    Ainda acho que “esses filmes” não se comportam de forma autista, nem ignoram o diálogo com o público e o mercado. Temos é que ampliar a noção de mercado, a possibilidade desses filmes alcançarem o mercado oficial do cinema, e de criarmos outras redes de exibição. Realmente acredito na abertura do espectador para o diferente do que lhe é costumeiro. E o que é o costume vigente me parece muito mais imposto do que natural. Seria delicioso assistir a TV globo propagandeando e legitimando esses filmes: o que será que o público ia achar?

    Claro que pessoalmente fico curioso com suas impressões sobre o Céu. Se quiser uma cópia, me passe seu endereço

    abraço

    Sérgio

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