Para além de carvão e hidrelétricas

Dos cinco continentes, a África e a Oceania são os que menos conhecemos através do cinema. Se a Oceania talvez não faça tanta falta, da África seria muito bom se tivéssemos um fluxo regular de filmes para nos conectar a uma de nossas matrizes étnicas. A mostra África Hoje, que começa nesta terça-feira na Caixa Cultural Rio – e dia 29 na de São Paulo – tenta preencher um pouco desse déficit.

Cena de “Sea Point Days”

Com curadoria de Luciana Hees e do moçambicano Pedro Pimenta, diretor do Dockanema, um dos mais importantes festivais de documentários da África, a mostra traz 24 docs de longa e média metragem. Eles tratam da realidade de diversos países, tendo sido dirigidos tanto por realizadores africanos quanto por estrangeiros. Pimenta resume assim o objetivo da mostra: “Pareceu-nos relevante transmitir ao irmão brasileiro que o irmão africano é diverso, complexo, rico também e que as realidades das gentes africanas devem ser integradas na relação, que tem que passar do carvão e das hidroelétricas para uma dimensão mais abrangente que só o conhecimento da cultura do outro irá permitir”.

Alguns dos filmes programados já tiveram passagem rápida pelo Brasil em mostras e festivais. É o caso do já clássico Oxalá Cresçam Pitangas, de Kiluange Liberdade e do escritor Ondjaki (2006), em que dez habitantes de Luanda, Angola,  fornecem sua visão da cidade, suas aspirações e desilusões. Ou o delicioso Dolce Vita Africana, de Cosima Spender (2008), sobre um estúdio fotográfico que registrava a elite do Mali nos anos 1960 e 70 (leia aqui minha resenha). Ou ainda Neither Allah, Nor Master, de Nadia El Fani (2011), investigação ateísta dos tabus muçulmanos na Tunísia em plena era das revoluções árabes.

Da África do Sul já tive a oportunidade de conferir dois filmes: Behind the Rainbow, dirigido pela egípcia Jihan El-Tahri, e Sea Point Days, de François Vester. Behind the Rainbow, ao que consta, vai passar na versão de média metragem. Assisti ao longa, que faz um detalhado balanço da transição do Congresso Nacional Africano de movimento de liberação (que tirou o país do apartheid) a partido hegemônico no poder desde 1994. A partir da relação de cumplicidade e posterior rivalidade entre os dois últimos presidentes do país, Thabo Mbeki e Jacob Zuma, o filme analisa a eventual transformação de antigos heróis românticos em políticos controvertidos, com acusações de corrupção e até de estupro pesando sobre as costas. Um painel denso de sugestões shakespeareanas, baseado na riqueza do material de arquivo e no privilégio de ouvir diretamente os protagonistas.        

Sea Point Days é um retrato impressionista de um bairro chique de Cape Town, outrora restrito aos brancos e hoje laboratório dos ideais de integração racial na África do Sul. Com poucas falas e muita observação do cotidiano, senso de humor e de oportunidade, François Vester deixa entrever a dialética entre aceitação e rejeição que ainda prevalece entre brancos, negros e mulatos naquela linda cidade. Senhoras saudosas da “lei e ordem” dos “good old days” passam o tempo num lar de idosos em frente ao mar. As piscinas municipais são ocupadas pelo “arco-íris” racial sul-africano. As ruas são patrulhadas por uma polícia branca que tenta limpá-las dos homelesses e bêbados, em geral negros. Uma variedade de personagens, alguns bastante interessantes, e um estilo quase musical fazem do filme não só informação relevante, mas também entrentenimento de qualidade.

Outro filme que já teve exibição entre nós é Sisters in Law (2005). Como sempre faz em culturas que não domina, a inglesa Kim Longinotto juntou-se a uma cineasta nativa, no caso a camaronesa Florence Ayisi, para realizar Sisters in Law. O filme é um elogio discreto da atuação da Women Lawyers Association numa pequena cidade rural de Camarões. Num cenário clássico de famílias muçulmanas em que a mulher é pouco mais que um utensílio doméstico, uma advogada defende esposas agredidas ou forçadas ao sexo por maridos brutais, meninas estupradas ou maltratadas por parentes, mulheres vendidas pelos pais a homens que não amam. O método de Longinotto é sempre eficaz: ganhar acesso às salas de depoimento e às cortes judiciais, conquistar a confiança das mulheres e gravar os momentos decisivos dos processos. Podemos nos perguntar até que ponto essa presença tão próxima e frequente da câmera e da pequena equipe do filme influenciará na performance e nos vereditos de advogados e juízes. O fato é que Sisters in Law, por mais realista que se pretenda, ajuda a produzir e repercutir casos exemplares de empoderamento da mulher em contexto social especialmente difícil.

O média Fronteiras de Amor e Ódio recolhe as memórias de trabalhadores moçambicanos expelidos da África do Sul por uma onda de xenofobia em 2008. O rico país vizinho é destino frequente para imigrantes de nações mais pobres no seu entorno. É longa a tradição de moçambicanos trabalhando nas minas e na cidade de Joanesburgo. Os personagens desse filme de Camilo Souza, produzido pelo brasileiro Licínio Azevedo e sua Ébano Multimídia, retornaram após terem suas casas incendiadas, parentes mortos e famílias desmembradas. Seus relatos rebatem na consciência de um jovem que pensa em aventurar-se além-fronteira, num ciclo que as tragédias e fracassos parecem não interromper.

A mostra África Hoje vai até o dia 27, com sessões às 16h e 19h e ingressos a 2 e 1 real. Nos dias 27 (Rio) e 29 (SP), haverá um debate reunindo a curadora Luciana Hees, o cineasta Marco Abujamra e o professor Mahomed Bamba, natural da Costa do Marfim e radicado no Brasil. Para ver trailers dos filmes e conferir a programação, visite o blog da mostra.

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