Questões cinematográficas sobre “Paulo Moura”

É coisa complicada criticar um filme de Eduardo Escorel, pessoa tão importante, influente e próxima de tantos que fazem, curtem, estudam e pensam o documentário entre nós. Justamente por me sentir parte dessa protocomunidade é que peço licença para desafinar do coro dos elogios e expor minhas restrições a Paulo Moura – Alma Brasileira.

Divido meus questionamentos em três campos:

1. Sobre as ausências

Como tem sido praxe em muitos documentários, sobretudo nos de Eduardo Coutinho, Escorel abre os trabalhos informando de viva voz as condições em que o filme foi feito. O adoecimento e a morte do músico frustraram os seus planos de fazer um doc “com” Paulo Moura, tendo optado então por trabalhar com os “vestígios” que encontrasse. Desde ali, porém, Escorel pontua a ausência de Moura como um dos elementos constitutivos do seu filme. E o faz de diversas maneiras: com o uso de telas pretas (o vazio, o luto); com o passeio da câmera pela sala de trabalho vazia, dias depois do falecimento; com o plano único do ataúde visto de longe.

Há momentos, porém, em que a ausência transborda para além de uma simples contingência e atinge a própria presença de Moura em cena. Por exemplo, nas imagens dele esperando o início da gravação da entrevista para Brasileirinho, de Mika Kaurismäki. Com seu olhar perdido, quase desamparado, Moura está ali mas não está. Pergunto-me o que Escorel pretendia com a inclusão desse longo plano. Como “sobra de tomada”, momento daqueles que Werner Herzog tanto cultua e que o próprio Escorel e João Salles usaram tão bem em Santiago, este aqui, a meu ver, não contém nada de revelador, a não ser reforçar uma espécie de “ausência” de corpo presente.

Isso se torna ainda mais problemático na maior parte das vezes em que vemos Paulo Moura falar. A falta de carisma, o ritmo claudicante da voz, o ar sempre meio ausente tornam penosa a experiência de ouvi-lo, quando não um pouco constrangedora. Não creio que a intenção tenha sido contrastar a quase-afasia verbal do músico com o seu vigor nos instrumentos.

Da mesma forma, essa “mania de ausência” vai alcançar até mesmo as cenas em que a viúva de Paulo Moura mostra ao diretor e comenta algumas fotos. Só vemos as mãos dos dois manipulando as fotografias. A intenção, quero crer, foi a de excluir qualquer rosto que não fosse o de Paulo e dos circunstantes no material de arquivo. Entendo que não ver o rosto de Escorel durante o filme é perfeitamente compreensível, mas deixar a voz de Halina Grynberg sem um rosto a que correspondesse me pareceu uma opção bastante questionável.

2. Sobre o aleatório

Documentários feitos com vestígios de personagens têm um de seus exemplos mais radicais no curta de João Moreira Salles sobre Ana Cristina César, em que a presença impossível da poeta é inteiramente substituída por traços de sua voz e de seu imaginário. Mas aqui, não. As muitas ausências de Paulo Moura são compensadas pela exuberância das performances musicais. São elas que formam a coluna vertebral do filme. Nesse sentido, há uma boa diversidade para dar conta da pluralidade do músico. Vemos trechos extensos de performances em situações as mais diversas: acompanhado por orquestra clássica, solando peças eruditas desafiadoras, tocando com pequenos grupos, regendo big band, fazendo performance experimental, coadjuvando sambista, ensaiando etc. Filmagens mais domésticas o mostram dando dicas de ritmo a outros músicos ou retocando suas composições com ajuda de computadores, além de conversas informais. Ou seja, uma presença afirmativa quando se trata de mostrá-lo em seu elemento.

No entanto, a forma como esses materiais aterrissam no filme me soou bastante aleatória, para não dizer arbitrária. Está claro que, dentro da proposta de reunir vestígios, Escorel abdicou de organizar informações em regime de biografia ou ensaio. Tomou para o filme inteiro a estrutura casual com que Halina vai retirando as fotos das pastas, sem nenhuma ordem ou previsibilidade, e às vezes mesmo sem nenhum comentário relevante. O que me pergunto é o que isso traz de luz para a imagem de Paulo Moura, a não ser uma impressão de “mistura e manda” que, se fica bem no título de uma composição popular, dá impressão de improviso como espinha dorsal do documentário.

O modelo de clipes musicais em sucessão caiu tão bem em A Música Segundo Tom Jobim por conta da pureza desse critério e também pelas surpresas, crescendos e possibilidades de leitura que se abriam  no fluxo. Em Paulo Moura, os cortes de uma sequência para outra raramente me sugeriram alguma relação ou aproximação interessante.

3. Sobre o manifesto

Por fim, quero me referir ao já famoso “manifesto” oralizado por Escorel numa das últimas cenas contra os “poderes mesquinhos (que) tentam controlar o passado e apagar nossa memória”. Ele se refere ao fato de que várias pessoas negaram, por razões diversas, autorização para ele incluir cenas gravadas com Paulo Moura, inclusive e principalmente as imagens de um sarau que o próprio Escorel filmou no hospital, no que viria a ser a despedida do músico de sua clarineta. A fala do diretor em off sobre uma tela escura tem o peso de uma denúncia – e é interessante que alimente os debates em torno de uma maior liberalização dos direitos de imagem na produção de documentários, como já ocorre com as biografias literárias.

O meu ponto de vista, porém, é que o filme em si sai perdendo com esse pronunciamento um tanto queixoso. Já tive oportunidade de questionar Escorel sobre isso. Ele tem uma explicação digna: queria expor francamente as condições pelas quais o filme é o que é. Mas aí fico pensando: esta não será a condição de quase todo documentário feito no Brasil? Quanto material é negado ou cobrado alto, seja por ciúme, ganância ou má vontade, e acaba ficando de fora dos filmes? Escorel, como qualquer outro diretor de docs, tem todo direito de reclamar disso dentro do filme, mas, dada a característica de tributo afetivo a Paulo Moura nesse caso, achei que o manifesto final soou como um curto-circuito, uma perturbação na corrente emocional e, em última instância, uma espécie de escusa por eventuais insuficiências.

Enfim, essas três questões colocadas acima me roubaram um bocado do prazer de rever e reouvir Paulo Moura num filme que considero atravessado demais por circunstâncias paralelas.

 

4 comentários sobre “Questões cinematográficas sobre “Paulo Moura”

  1. Crítica corajosa e precisa. Ou o diretor considera o filme “apresentável”, ou não o apresenta. Concordo que o manifesto caiu bem mal e não é capaz de atenuar em nada as falhas do filme. Até os melhores deslizam… Aguardamos o próximo de Escorel !

  2. Depois de ler sua maravilha sobre V. Carvalho, emendei com a do Bodanzky. Outro deleite! Bem, qto. este doc. sobre Paulo Moura, é inegável que no minimo serve como alerta p/ doc. sobre 68 em Osasco/SP que Marta G. O. Rovai e eu estamos finalizando. Bem como para futuros projetos. Debate que infelizmente tornou-se quase impossível em outras midias (como a impressa). Claro, Espero conferir já o filme. E ampliar outras ousadias, inclusive com Eduardo Escorel…

  3. Tem alguma imagem de Paulo Moura no subúrbio,em sua casa,tem imagens do tempo que tocou na Estudantina?Caso não tenha , o filme é pós Hallina,na vida do Paulo.Conheci bem o tímido e generoso Paulo Moura,com seu olhar distante e coração do tamanho de um trem!.A vida de Paulo é rica,,sua vida no subúrbio,as inúmeras mulheres que se apaixonavam,era um grande sedutor .Só nos últimos anos ele foi morar em condomínio de luxo,foi, sempre um homem comum e genial,daí sua grandeza, acredito.Mas só posso divagar pois ainda não vi o filme, espero não me decepcionar.

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