Pílulas 26

Lembrando o que escrevi sobre O QUE SE MOVE à época da Semana dos Realizadores: Uma visita sóbria e penetrante à dor de três mães pela perda de seus filhos. O filme me conquistou num crescendo a partir de um primeiro episódio claudicante, um segundo mais bem resolvido e um terceiro absolutamente climático, que nos faz sair do cinema com a alma em frangalhos. O estilo varia entre um naturalismo quase televisivo e choques de atmosfera que podem lembrar Lars Von Trier. Cada episódio se conclui com uma mãe entoando lindamente uma canção, numa das ideias mais originais e comoventes que vi ultimamente no cinema. Uma tristeza linda, como bem colocou a produtora Sara Silveira.

Na tradição do cinema francófono sobre professores e alunos, o canadense O QUE TRAZ BOAS NOVAS não passa tão bem nas provas quanto os franceses SER E TER e ENTRE OS MUROS DA ESCOLA. O mote é forte: uma professora que se suicida em plena sala de aula (vazia) não é pouca coisa. Mas fazer o filme inteiro ecoar esse acontecimento acaba como parafuso girando em falso, sem aprofundar mais o furo. Além disso, o tratamento me pareceu por demais sentimental, ainda que sem derramamentos, que isso não deve existir mesmo em Montréal. As questões da imigração e do passado argelino submergem num roteiro mais preocupado em situar a “conquista” dos alunos pelo professor outsider. Mas até isso temos que receber “pronto”, sem uma dramaturgia que desse conta satisfatoriamente do processo. Somente uma aula de boas intenções.

EM TRANSE é bem aquele tipo de thriller psicológico em que você já sabe: cada frase e cada sugestão visual a princípio incompreensíveis vão revelar seu sentido mais adiante, como num jogo de espelhos distribuído no tempo, e não no espaço. O problema de EM TRANSE é que essa construção em abismo, justificada pela amnésia e a hipnose, não leva a nenhum grande achado, mas apenas se consome em seu próprio barroquismo audiovisual. A moldura vazia é uma bela metáfora para o filme. Danny Boyle é o Cirque du Soleil dos efeitos de cenografia e edição. O filme pretende ser um sonho vertiginoso em que a gente nunca sabe direito onde está nem com quem está falando. Mas eis que o sonho se alonga, dá voltas em torno de si mesmo, e de repente estava eu querendo desembarcar antes do fim. Ver Rosario Dawson depiladinha é um prêmio que chega meio tarde, quando a gente já está querendo mais que o quadro do Goya se perca para sempre naquele estardalhaço de filme C produzido em nível A. Resumindo: Danny Boyle cansa. 

Apaixonado pelo passado, Terence Davies faz em AMOR PROFUNDO um melodrama travado, uma espécie de DESENCANTO rodado num museu. A peça THE DEEP BLUE SEA, de Terence Rattigan, escrita em 1952, conta a história de uma mulher que assume o risco de se apaixonar e largar o casamento conservador, mas não consegue se colocar em nenhum dos dois mundos. Os anos 1950 são um paraíso para o gosto retrô de Davies. Lá estão os movimentos lentos e meticulosamente calculados, a estética “ouro sobre azul” de sua fotografia, os filtros flou, a trilha sonora inundante, as pessoas cantando em coro velhas canções, os ecos da II Guerra. Ele sempre foi ligado na construção de imagens icônicas. Só que em filmes como VOZES DISTANTES e O FIM DE UM LONGO DIA, esses ícones correspondiam diretamente à substância, ou seja, a suas memórias pessoais e familiares. Eram projeções de uma subjetividade em todo o seu esplendor. Ultimamente, lidando com histórias alheias, ele não vai muito além da casca das coisas. Rachel Weisz está magnífica com o pouco material que tem. Cada plano e cada frase estão corretos, tudo maniacamente no seu lugar. Só o que faltou foi fazer aquelas vidas e aquelas dores ecoarem para além da superfície lustrosa das imagens. 

SOMOS TÃO JOVENS não resolve todos os problemas desse tipo de cinebiografia, mas não acrescenta novos e escapa de muitas armadilhas. Achei o filme divertido e informativo sobre o início da carreira de Renato Russo e do rock-BSB. Thiago Mendonça, principalmente, mas também todo o elenco “roqueiro” imprime uma energia bacana e Antonio Carlos da Fontoura mostra que não perdeu a verve apesar da presença esporádica na direção. Musicalmente, o filme é uma façanha pela performance dos atores. Claro que aquele retrato da família de Renato é um horror de estereotipado. Dificilmente vemos uma família careta decentemente representada no cinema brasileiro. Mas isso abala pouco o poder de contágio do filme, com alguns diálogos bem espirituosos e uma fatura técnica acima da média. Pode não ser um segundo CAZUZA, mas chega perto e merece a atenção que está tendo. 

Só agora vi J. EDGAR, a biografia de Hoover, criador e eterno diretor do FBI. Esperava de Clint Eastwood uma elegia da linha dura e, por extensão, do conservadorismo americano, mas encontrei um filme bem mais matizado do que isso. A dedicação “patriótica” de Hoover vai aos poucos sendo mostrada como um ensejo para a psicopatia, a paranoia anticomunista e o horror a mudanças. Os “podres” estão todos lá: o uso da máquina para se perpetuar no poder através de chantagens, grampos e ameaças; as mentiras para lustrar a própria imagem perante a opinião pública; a megalomania de quem se achava o salvador da pátria; a hipocrisia moral de um representante da ordem que dissimulava a sua própria desordem individual. Clint constroi cenas admiráveis em torno do romance nunca assumido com o assistente Clyde Tolson, com a ajuda de diálogos supimpas do roteirista Dustin Lance Black. O maior senão é a maquiagem geriátrica desastrosa que engessa os atores, exagera nas rugas e torna ridículas certas cenas. Leonardo DiCaprio é o único que consegue atuar bem por trás daquela inchação horrenda. Ainda assim, achei o filme sóbrio e interessante do início ao fim. Para mim, é um de seus melhores. 

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