Cores em disputa

A questão racial no Brasil tem sido objeto de disputa permanente. Raçao novo documentário de Joel Zito Araújo (A Negação do Brasil; Filhas do Vento; Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado), dirigido em conjunto com a documentarista americana Megan Mylan (Lost Boys of Sudan, Oscar de curta doc por Smile Pinki), examina o assunto através de três disputas localizadas. Isso equivale a um corte transversal na luta pela igualdade entre as raças no país.

A maior parte das ações ocorre entre 2009 e 2010. Num antigo quilombo do Espírito Santo, Miúda e seus companheiros disputam território com a fábrica de celulose Aracruz e tentam fazer as reivindicações do povo quilombola repercutirem no centro do poder. Em Brasília, o senador Paulo Paim conclui uma batalha de 10 anos pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, que visava inclusive proteger os direitos de gente como Miúda. Em São Paulo, o sambista Netinho de Paula coloca no ar a TV da Gente, voltada para a inclusão dos negros na mídia. A emissora teria vida breve e Netinho partiria para a política (é hoje vereador do PCdoB).

A escolha dessas três formas de disputa repercute na maneira como cada personagem principal é apresentado, dentro do seu habitat e pelas formas de atividade a seu dispor. Miúda e sua gente aparecem sobretudo no ambiente doméstico, nos ritos afro-brasileiros e nas manifestações políticas de caráter popular. Eles são o gancho com a terra, as tradições e os mitos. Lutam pelo básico: um lugar para viver.

O senador Paim é visto sempre nas dependências do Congresso, em plena liturgia do cargo representativo. Ele é o personagem das negociações, da delicada costura de acordos. Nesse cenário, as câmeras e microfones de Joel Zito tiveram um raro acesso aos petits comités do Senado, aos cochichos de corredor e aos desabafos dos políticos. O senador Demóstenes Torres, de triste memória, ainda era uma das figuras de destaque na discussão do Estatuto da Igualdade Racial.

Por fim, Netinho aparece quase sempre pela intermediação midiática, em entrevistas, shows e pronunciamentos. Ou seja, a abordagem de cada personagem é constitutiva de sua presença no filme, assim como no jogo de forças sociais. De resto, não há entrevistas nem qualquer tipo de narração, exceto por uma editorialização fotográfica nas cenas de abertura. O filme se constrói sobremaneira na presença obstinada frente a seus personagens.

A dinâmica das cenas cuida de apontar, espontaneamente, a disputa racial no dia-a-dia da sociedade. São brancos os que barram o caminho dos quilombolas no Congresso ou os que reclamam da estrada interrompida por eles no Espírito Santo. Eram brancos os políticos que discursavam contra as cotas raciais. São brancos os modelos que povoam os anúncios publicitários na cidade de São Paulo.

É espontaneamente também que o filme, num certo momento, se faz agente da invisibilidade dos negros. Netinho está em casa examinando uma boneca negra da filha. A empregada negra aparece ao fundo, meio fora de foco. Em seguida, ele sai para o trabalho, passa pela área de serviço e se despede da doméstica, mas a câmera, por instinto ou escolha rápida, não se volta para mostrá-la. Segue com o patrão, ele negro também, mas personagem principal. A cena passa quase desapercebida, mas revela o que ainda existe de indiferença em relação aos negros não celebrizados.

(Texto publicado originalmente por ocasião do Festival do Rio 2012)

2 comentários sobre “Cores em disputa

  1. Ah, Carlos Mattos…fique tranquilo, a cena não passa desapercebida, assim como não passa despercebido que, não fossem as câmeras, provavelmente o Netinho não se despediria da funcionária doméstica. Pessoas “civilizadas” não costumam cumprimentar funcionári@s doméstic@s. É assim que funciona o “sistema”, o “Racismo”, o “ponha-se em seu lugar”. Aposto que esta cena não foi para o filme por acaso. Bom q percebestes tb! Axé!

  2. A minha única discordância com Carlinhos Mattos, um crítico que admiro e respeito muito, é que a personagem da Miúda é a verdadeira representação da empregada negra de Netinho. As nossas câmeras acompanharam os personagens condutores do filme. A escolha óbvia era por eles, em qualquer situação, a não ser que o outro se configurasse claramente como antagonista ou coadjuvante (como Demostenes Torres/antagonista, ou Baiquinha/coadjuvante). Mas, mesmo discordando, é importante ele dar ênfase à questão da invisibilidade do negro em nossa sociedade.

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