Carne fácil

Rosane Nicolau lança na próxima quinta-feira seu segundo livro de contos, Margem de Erro, pela Ibis Libris. O volume contém ilustrações de José Araripe Jr. Abaixo, algumas informações sobre o livro e, usando as prerrogativas de marido, mostro em primeira mão um dos 50 minicontos.

Margem de Erro é dividido em oito módulos, ilustrados pelo artista visual e cineasta José Araripe Jr. O título de cada módulo indica pistas de sentido e aponta uma tênue unidade entre os textos ali reunidos. Personagens extraordinários vivendo dramas comuns ou gente comum vivendo situações extraordinárias compõem a galeria desenhada por Rosane com traços rápidos e fortes.

A expressão “margem de erro” descola-se aqui do sentido consagrado pelo uso, e as palavras reassumem sua riqueza semântica original. Passam a expressar as excentricidades, equívocos, desilusões e loucuras que movem essas criaturas e suas atitudes extremas, não raro desconcertantes. Um serial killer no mundo industrial, uma figura saída de um quadro, uma personagem literária em pé de guerra com seus autores, uma misteriosa mulher de branco e até uma cidade vítima de maldição – eis alguns protagonistas dessas odisseias minúsculas saídas da imaginação da autora.

Rosane Nicolau, bibliotecária de formação, lançou em 2012 o seu primeiro livro de contos, Outrorretratos (Azougue Editorial).

SERVIÇO
Margem de Erro
Rosane Nicolau
Ilustrações: José Araripe Jr.
Ibis Libris Editora
Rio de Janeiro, 2013
126 páginas
Preço: R$ 30

Lançamento:
Dia 28/11/2013, a partir das 19 horas
Blooks Livraria (Espaço Itaú de Cinema)
Praia de Botafogo, 316 Tel: (21) 2559-8776
Rio de Janeiro, RJ

CARNE FÁCIL 

Dois ponteiros do relógio se convertem em um só: meia-noite. O primeiro choro do rebento anunciou seu nascimento, o cachorro latiu, a porta rangeu e Adelina fez o sinal da cruz com as mãos postas em direção ao céu. Herdeiro único de uma das maiores indústrias alimentícias do país, Plínio cresceu com fama de excêntrico nas brincadeiras e eremita pela vida reclusa. O jovem se graduou em Química com louvor, “apesar de passar noites seguidas fora de casa”, cochichavam. Negava-se a assumir o controle das empresas do pai. Partidário do princípio de Hipócrates: “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”, almejava ter um laboratório na fazenda desde que fosse para se dedicar à pesquisa. Seu desejo foi atendido pela família quando a cidade se tornou perigosa: prostitutas desapareciam da noite para o dia.

Plínio se entregou a experiências com alimentos de origem animal. Triturou, separou ossos e cartilagens, prensou e converteu em cubos o extrato de carne – o Easy Meat. Sucesso de vendas, o produto figura em receitas afrodisíacas e exóticas, pelo sabor peculiar e efeito revigorante.

Nos arredores da fazenda, como na cidade, os tempos são de insegurança. Comenta-se o desaparecimento frequente de mulheres. Plínio está seguro em seu laboratório.

Rosane Nicolau

2 comentários sobre “Carne fácil

  1. “Prerrogativa de marido” me pareceu muito mais significativo pelo ESTÚPIDO PRECONCEITO que qualquer margem de erro possível em MARGEM DE ERRO. Fico grato por essa abertura suficiente para impedir que eu leia o livro. sob tal circunstância já que nada mudou, muda ou mudará. UM STATUS SOCIAL APENAS REFORÇA O SENSO COMUM, inimigo da arte, do conhecimento, do Devir enfim.. Agradeço ao Virtual por possibilitar tal descoberta.

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