Solidão e sobrevivência

Revi O HOMEM DAS MULTIDÕES, agora em projeção decente na Sala 5 do Espaço Itaú de Cinema (Rio). Mantive as mesmas admirações e restrições de quando vi pela primeira vez. Embora considere o tema da solidão urbana um tanto batido, aprecio a concentração de Cao Guimarães e Marcelo Gomes no relato dos encontros entre aqueles dois personagens fóbicos envolvidos com o trânsito de Belo Horizonte. Acho que entendi melhor o que os move um na direção do outro. Ela, avessa aos contatos com gente e adepta do virtual, vê nele um vazio humano onde pode se encostar. Ele, observador externo, gosta da maneira como ela aceita o seu silêncio. Mesmo assim, enxergo um certo exagero na caracterização de cada um, o que os leva muito próximo do estereótipo. A metáfora dos copos, coroada com a música de Gil no final, roça o óbvio. A tela quadrada – no polo oposto à horizontalidade extrema de “Sudoeste” – sublinha a exiguidade das vidas deles e expande o campo extra-quadro visual e sonoro, provocando no espectador uma sensação de incompletude que é fundamental à proposta. No que diz respeito à forma como cada um é enquadrado, reparei que ela tem sempre uma barreira a separá-la do mundo, seja nos reflexos dos vidros ou na relação com os gadgets. Já ele é visto de modo mais direto, contraposto à multidão ou na rotina solitária, com uma câmera que frequentemente o trata com indiferença, deixando-o fora do campo visual em diversas situações. Quanto à originalidade desse tratamento, acho apenas relativa se penso em filmes como “Transeunte”, de Eryk Rocha, os home movies de Marcelo Ikeda e outros que não me recordo agora mas já abordaram o desterro íntimo dentro das grandes cidades.

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The-Deep_510x317A Islândia que vemos em SOBREVIVENTE, sobretudo a ilha em que se passa a ação, é um mundo dominado pelo cinza, o gelo e a rusticidade dos homens e da natureza. Viver ali já é de alguma forma sobreviver. Mas imagine se você é o protagonista do filme, que sai num barco de pesca e sobrevive a um naufrágio enquanto seus quatro companheiros perecem nas águas congelantes. Não vai bastar sair da água depois de seis horas à deriva, mas você terá que ferir o corpo nas escarpas da ilha, suportar os pesquisadores que não podem crer na sua resistência e a dor dos familiares dos colegas. O ônus da sobrevivência e a duração do seu processo são enormes. Você é um herói e ao mesmo tempo um réu da culpa de não ter morrido também. O filme, que esteve numa shortlist do Oscar de língua estrangeira, reencena uma história real, mas não tem material para ir muito além do fait-divers. Realista, aflitivo e bastante sóbrio para o gênero, tem no ator Ólafur Darri Ólafsson (sósia de Phillip Seymour Hoffman) a âncora que nos mantém ligados ao drama do personagem, um sobrevivente por natureza.

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Como Neil Jordan em “Byzantium” (2012), Jim Jarmusch surfa também na onda dos neovampiros contemporâneos com este AMANTES ETERNOS. A onipresente Tilda Swinton e Tom Hiddleston fazem Adam e Eve, um casal apaixonado há pelo menos cinco séculos. Ela mora em Tanger (Marrocos), ele em Detroit, USA. Conversam pelo skype, reveem os tempos passados em vídeos do Youtube e, como gente civilizada que são, não atacam humanos diretamente, mas compram sangue de hospitais e tomam em taças delicadas – ou na forma de picolés. Não aprovam em nada o comportamento estabanado da irmã mais nova de Eve, Ava (Mia Wasikowska), que ainda se alimenta à maneira antiga. Claro que é uma comédia, mas à moda Jarmusch: melancólica, romântica… e pós-moderna. A intertextualidade está presente através de livros, personagens e apelidos. Quando vai ao hospital fazer suas comprinhas, por exemplo, Adam troca a roupa de roqueiro por um disfarce de médico, Dr. Fausto. Eve, por sua vez, é amiga de Christopher Marlowe (John Hurt), o dramaturgo do século XVI que até hoje se arrasta pelos cafés de Tanger vestindo um colete de 1586. Adam, aliás, anda deprimido com o estado do mundo. Odeia quem vampiriza os outros, como Shakespeare que vampirizou Marlowe, os roqueiros de hoje que vampirizam suas músicas e até os ladrões de energia que roubam através de “gatos”. A cenografia combina peças de várias épocas e explora coisas típicas de Tanger e Detroit. Tudo é milimetricamente pensado e estilizado, como sempre na obra do diretor. E propõe o mesmo diálogo com seu fãs, o que para os demais pode soar apenas exótico e cifrado. Mas que é uma delícia de ver e ouvir, lá isso é.

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