Um “mago” e três “anarquistas”

Com esse título, NÃO PARE NA PISTA – A MELHOR HISTÓRIA DE PAULO COELHO parece vender a ideia de que nenhum livro do escritor se compara a sua biografia. A crer no filme, Paulo foi internado em clínica psiquiátrica na juventude apenas porque teimava em ser escritor e nada mais. Como criação de mito, até que funciona. O que não funciona mesmo é o roteiro repartido entre três fases decisivas da carreira do personagem (anos 60, 80 e 2013). Pelo menos na primeira metade, o filme não passa de uma sucessão de cenas ilustrativas, com diálogos pobremente funcionais ou em tom declaratório, e um tratamento cênico muito cafona, baseado em ecos de vozes, estardalhaço sonoro que mais sugere um filme de horror barato e um romance posado (com Luiza) que parece saído de páginas da revista Trip. Alguma coisa mais interessante acontece quando entra em cena Raul Seixas, trazendo alguma energia, algum humor e um certo sentido ao visual psicotrônico. Seria ótimo ver um filme inteiro sobre essa parceria. Mas isso também passa, e ficamos entregues ao papo furado do misticismo que haveria de construir a persona do “Mago”. A seu favor, o filme conta com um elenco bem afinado, uma direção de arte eficaz na marcação das épocas e uma direção musical caprichada. E o último letreiro sana uma dúvida que eu tinha há muito tempo. Diz assim: “Este filme se inspirou na vida e obra de Paulo Coelho. Qualquer semelhança com pessoas reais terá sido mera coincidência”. Ou seja, está confirmado: Paulo Coelho não existe.

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Está estreando no Festival de Locarno mas devia estrear em telão na Cinelândia ou na Avenida Paulista. COM OS PUNHOS CERRADOS, mais uma travessura dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti, mais o primo Pedro Diógenes, é o primeiro longa-manifesto do neo-anarquismo trendy atual. Ou o segundo, se incluirmos “Riocorrente”, de Paulo Sacramento, nessa mesma correnteza. Os três diretores-atores fazem um trio de jovens anarquistas que transmitem uma rádio pirata e saem às ruas com lenços no rosto para colocar cartas obscenas nas caixas de correio da alta burguesia de Fortaleza. O nome da capital cearense serve já de signo dos poderes do Capital e da Ordem, contra os quais os meninos se insurgem. O filme tem uma trama típica de policiais mainstream: um patriota direitista e religioso, daqueles bem caricatos, move uma perseguição aos anarquistas e contrata uma strip teaser para seduzi-los e traí-los. O resto é para saber vendo o filme. Em tom de suposta brincadeira, os Pretti-Parente na verdade falam sério sobre a necessidade de “quebrar o espelho” da democracia e superar o capitalismo à margem do Estado. Mas são lúcidos o suficiente para reconhecer a derrota desse ideário. O vazio das dunas cearenses é o que lhes sobra depois que a guerra é perdida, restando-lhes somente uma voz clamando no deserto, um companheiro morto no caminho e uma bandeira negra empunhada contra o vento. A lembrança de “Terra em Transe” me parece inevitável. O filme inclui uma emocionada e magnetizante entrevista com o poeta e cineasta Uirá Reis (“Doce Amianto”), leitura de textos de Bakunin (não creditado), James Joyce, Artaud, Elie Faure e Oswald de Andrade, além de diversas canções de inspiração anarquista de variada procedência. Nisso tudo, concorde-se ou não com o teor do manifesto, ou mesmo com sua amarga conclusão, existe a energia cinematográfica sempre muito interessante dos filmes da Alumbramento. Tem sempre ali uma combinação de doçura e fúria, uma engenhosidade na construção das cenas e uma sinceridade de propósitos que não pode deixar de nos tocar.

3 comentários sobre “Um “mago” e três “anarquistas”

  1. “Este filme se inspirou na vida e obra de Paulo Coelho. Qualquer semelhança com pessoas reais terá sido mera coincidência”. “Ou seja, está confirmado: Paulo Coelho não existe.” Dedução lógica, mas então quem fica com o dinheiro que pagam ao autor (?) de tantos best-sellers???

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