Fragmentos de um discurso cinéfilo

Reponho aqui o texto já publicado sobre Ato, Atalho e Vento, que entra hoje em cartaz no Rio.

Ato, Atalho e Vento é o retorno muito esperado de Marcelo Masagão ao modelo do filme de compilação que caracterizou seu bem-sucedido Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos (1999). Desde então, ele trabalhou em chaves diversas, sempre com muita ousadia, mas não obteve resultado tão marcante. Nem Gravata nem Honra (2001) era documentário de depoimentos sobre relações de gênero numa pequena cidade paulista. 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2003) era um filme conceitual sobre o fetiche do consumo. Otávio e as Letras (2007), ensaio ficcional sobre o excesso de informações visuais no mundo contemporâneo.

O novo filme não abre mão da costumeira ambição intelectual do autor. Ato, Atalho e Vento é apresentado como ” fruto do encontro do livro O Mal-estar na Civilização, de Sigmund Freud, com trechos de 143 filmes realizados em diversas épocas e lugares do mundo”. Essa segunda parte da definição sublinha a outra faceta de Masagão: o pesquisador apaixonado pelos fragmentos do cinema. Com esse tipo de material, Nós que Aqui Estamos… fazia um inventário semificcional dos mortos, célebres ou não, do século XX. Em Ato, Atalho e Vento ele sai em busca de imagens icônicas de situações-limite, ou mesmo além do limite.

Os fragmentos vão de Méliès a Lars Von Trier. Os blocos se sucedem: viagens, aprendizados, desejos, medos, vertigem, desespero, solidão, morte… A ideia de frustração está muito presente, justificando o slogan do filme: “as coisas não saíram como havíamos planejado”. Masagão edita com precisão, inteligência e humor vertovianos os planos de diversos filmes dentro de pequenas estruturas dramáticas, onde as imagens se complementam, se chocam ou se desmentem a todo momento. O fundo psicanalítico é mais evidente nos blocos que envolvem pulsões eróticas, desencontros amorosos, personalidades divididas, máscaras, pesadelos, surtos, etc. De resto, Freud entra aí como uma sugestão de leitura para o espectador que não pode viver sem um subtexto.

E o texto, afinal? É a magia, a poesia e os enigmas que esses pedaços de filme encarnam, especialmente quando estão assim, degarrados do seu contexto original e submetidos a uma nova organização, na qual cada tomada namora e se casa com a anterior, e engravida a seguinte. O fluxo contempla padrões básicos de movimento, como gente correndo ou pulando, bolas girando, coisas caindo. Quase não há cenas prosaicas, mesmo que algumas pudessem sê-lo no filme a que pertencem. Da mesma forma, os pouquíssimos diálogos não importam, nem são legendados. Toda a operação se instala no córtex cerebral através do olhar e da percepção musical. A envolvente e estimulante trilha sonora é de Eduardo Queiroz, Felipe Alexandre, Guilherme Rios e Wilson Sukorski.

Alguns filmes funcionam como leito sobre o qual se instalam as cenas dos demais. É o caso de E la Nave Va, Entr’acte, Playtime e Meu Nome é Ninguém. Outros aparecem quase subrepticiamente, como viajantes clandestinos. Em meio ao redemoinho de imagens, eis que surge, por exemplo, Sergio Bianchi aos berros, pedindo solidão no Viaduto do Chá – trecho do curta Disaster Movie, de Wilson Barros.

Mais que representar o mal-estar, Ato, Atalho e Vento nos situa no bem-estar da plena fruição cinematográfica. Um paroxismo de imagens que só encontram sentido no fluxo, na fricção que estabelecem umas com as outras.

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