Tags

, ,

OLMO E A GAIVOTA foi exibido segunda-feira no Festival de Locarno.

Depois de Elena, ao que parece, Petra Costa encontrou outra “irmã” na atriz italiana Olivia Corsini. Essa, além de não estar morta, vai dar à luz uma nova vida. Ela é a protagonista do seu novo documentário, Olmo e a Gaivotai, dirigido em parceria com a dinamarquesa Lea Glob. O filme foi coproduzido pela Zentropa de Lars Von Trier e ostenta o nome de Tim Robbins como produtor executivo. Produtores à parte, Olmo e a Gaivota é resultado de uma íntima colaboração das diretoras com Olivia e seu marido, o também ator Serge Nicolai, ambos do Thêatre du Soleil.

Num misto de doc de observação e cotidiano encenado, acompanhamos a intimidade do casal durante o período de gravidez de Olivia, quando ela apresenta uma complicação que a impede de prosseguir nos ensaios de “A Gaivota”, de Tchekhov. Obrigada a ficar em repouso durante meses no seu apartamento em Paris, Olivia entrega-se a um longo processo de reflexão. É acometida de temores por sua carreira, pelo envelhecimento, por não se sentir exatamente preparada para a maternidade. A síndrome da gravidez reflete-se no estado emocional de Olivia e na vida do casal.

Há uma permanente indefinição entre o que é vivido espontaneamente e o que é gestado para a câmera como parte de uma busca conjunta de diretoras e elenco no sentido de radiografar a mente de Olivia. Em pelo menos dois momentos, ouvimos a voz de Petra intervir para ajustar os termos da conversação que se desenrola na cena. Petra está muito presente também na linguagem do filme, com seu tom introspectivo, seu foco doce, sua temperatura cálida e ritmo musical. E também na forma evocativa com que trata as cenas de arquivo do passado de Olivia.

Existe uma inspiração inicial no romance “Mrs. Dalloway”, de Virginia Wolf, mas isso se dilui bastante na experiência afinal gravada. O que impregna de verdade são as vibrantes personalidades de Olivia e Serge, além da interessante mise-en-scène de belos atores fingindo tão completamente que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem.

Veja o trailer.


No festival Pirenópolis.doc tive a oportunidade de ver YORIMATÃ.

Para alguém como eu, que quase nada conhecia da dupla Luhli e Lucina, foi uma revelação e tanto. Dos anos 1970 aos 90, elas viveram uma espécie de portfólio dos sonhos de vida alternativa e criativa: amor inclusivo, família expandida, utopia autossuficiente, consciência ampliada por drogas, invenção artística quase permanente, quebra de barreiras entre cotidiano doméstico e atividade de criação.

Elas mesmas, e quase mais ninguém, recordam suas histórias e fazem um balanço do tanto que viveram e compuseram juntas. Outros personagens, como Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Tetê Espíndola e Zélia Duncan, contracenam com as duas em evocações mais musicais que qualquer outra coisa. A narrativa conduzida na primeira pessoa do plural determina alguns saltos um tanto bruscos e alguma desorganização na exposição de tempos e lugares, mas felizmente o filme de Rafael Saar não depende muito de questões estruturais. Sua força está na presença atual das duas e no magnetizante material de arquivo reunido. Lá estão diversas apresentações antológicas da dupla e muitas cenas da vida privada, colhidas pelo fotógrafo e cineasta Luiz Fernando Borges da Fonseca, morto em 1990 e com quem as duas viveram harmoniosamente e tiveram dois filhos cada uma.

Além de trazer mais à luz a originalidade multiétnica das compositoras e o seu talento performático, YORIMATÃ funciona hoje como um necessário manifesto anticonservadorismo. O desassombro libertário, profundamente honesto, de Luhli e Lucina comprovou ser mais que um delírio hippie. Ficou como exemplo de afetividade integral que resiste aos desencontros da vida.

Vale a pena ver o site e ouvir os discos.


QUE HORAS ELA VOLTA? teve sua primeira exibição brasileira esta semana em Gramado.

Ele corre um único risco: o de que a performance arrasadora de Regina Casé, que já apaixonou meia Europa, obscureça as demais qualidades do filme de Anna Muylaert. Pois o que se vê ali é o encontro de uma atriz fenomenal com um material dramatúrgico de primeira e que se amoldou como um corpete a suas características.

Em seguida a “O Som ao Redor” e “Casagrande”, este é o filme mais habilitado a representar a dinâmica atual das classes na urbe brasileira. Sem querer reduzir as personagens a estereótipos, eu diria que Val encarna a herança colonial de afetuosidade, servilismo e renúncia pessoal na esfera das empregadas domésticas. Jéssica, a filha há muito distante, é a geração que cresceu alheia àquela herança e se situa numa fronteira tênue entre independência e oportunismo. A família dos patrões reúne as derivas e dissimulações de uma classe média alta que vê em risco seu projeto de controle branco sobre os espaços e autoridades da casa.

É na interação entre esses campos de poder e de sentido, assim como nos desdobramentos da visita da filha, que Anna Muylaert exerce seu domínio admirável de escrita e mise-en-scène, favorecida por um conjunto de atores em perfeita sintonia. Mais que um triunfo de Regina, o filme é um primor de harmonia entre elementos.