Pais no Brasil e uma piada ruim no Afeganistão

Por coincidência ou não, três filmes brasileiros lançados esta semana tratam da relação entre crianças e seus pais. Em O OUTRO LADO DO PARAÍSO, de André Ristum, um menino mineiro, futuro escritor, tem no pai a figura de um herói, modelo de idealismo e inquietação na busca dos seus sonhos. Já em PONTO ZERO, de José Pedro Goulart (foto à direita), o adolescente gaúcho vê no pai o exemplo contrário: um homem sinistro, um pequeno canalha que ecoa o fascismo latente em outros personagens da sociedade. Esse menino ainda tem que lidar com o oportunismo e a carência edipiana da mãe. Por sua vez, em CAMPO GRANDE, não há pais à vista. As crianças de Sandra Kogut são largadas pela mãe na porta de uma antiga patroa, que se incumbe de ajudá-las a reencontrar a família e se torna uma espécie de mãe substituta.

Nos dois primeiros filmes, o papel contrastante desempenhado pelos dois pais reflete o tom de cada obra: caloroso e solar no de Ristum, tormentoso e noturno no de Goulart. No longa de Sandra, a ausência e a busca traduzem a desagregação das famílias e uma certa desumanização da cidade. Talvez seja apenas coincidência de estreias, mas algo me diz que desde “Central do Brasil” a família não era um núcleo tão privilegiado da nossa dramaturgia cinematográfica como agora.



MEMÓRIAS DE OUTRO GOLPE

Baseado no livro autobiográfico de Luiz Fernando Emediato, O OUTRO LADO DO PARAÍSO segue o figurino das boas adaptações literárias. Uma narração econômica desloca a atenção para a figura do pai do pequeno Fernando, enquanto o foco da narrativa permanece nele mesmo. Quando a família se muda do interior de Minas para Brasília em busca de um eldorado em 1963, Nando começa a descobrir os livros, a política e as armadilhas do amor. Compreende, sobretudo, que utopia e realidade caminham juntas, se contradizem e se alimentam mutuamente. Afinal, o paraíso sonhado pelo caminhoneiro Antonio (Eduardo Moscovis), a partir de uma referência encontrada na Bíblia, vai se desmoronar na poeira vermelha da humilde Taguatinga e no fechamento político pós-golpe de 64.

Apesar de um certo didatismo e do formato tradicional, esse segundo longa de André Ristum (“Meu País”) é um sensível e bonito recorte de época, beneficiado por uma produção esmeradíssima, um elenco em ponto de bala (inclusive o infantil, coisa rara por aqui) e uma fotografia que exala lirismo a cargo do craque Hélcio Alemão Nagamine. A conjugação da direção de arte com as tomadas documentais de arquivo é primorosa. Os anos dourados do Brasil pré-golpe são retratados de maneira inspirada tanto na estética quanto no roteiro (final de Marcelo Müller). A cena dos beijos no cinema durante uma exibição de “Um Candango na Belacap” e as mudanças da família no caminhão que abrem e fecham o filme são momentos para não esquecer. Da mesma forma, a sequência em que a família se aproxima de Brasília e a vê iluminada do alto, uma licença poética geográfica no extenso Planalto Central, é característica dessa abordagem onírica que os personagens vão desconstruir (ou não?) ao longo do filme.



Cat Stevens/Yusuf Islam merece destinos bem melhores do que servir de almofadas sonoras para uma das comédias mais insossas que Hollywood gestou ultimamente. ROCK EM CABUL é um desfile de chacotas étnicas, crossculturais e misóginas, acompanhadas de mil referências ao baixo pop e à mitologia do sucesso. Como nos velhos filmes colonialistas, o herói americano atua como agente civilizador num território bárbaro, ensinando as virtudes da negociação e do espírito empreendedor. Não há subtexto irônico que disfarce tanta calhordice.

Barry Levinson confia além da conta no carisma desligadão de Bill Murray como o empresário de música fracassado que se mete numa turnê improvável pelo Afeganistão. O roteiro de Mitch Glazer acumula situações estapafúrdias e soluções canhestras à medida que o protagonista se vê perdido naquele “fim de mundo” e resolve levar uma talentosa cantora tribal ao estrelato através do famoso programa de calouros “Afghan Star”. O desfecho é tão desastroso que valeria uma Framboesa de Ouro na categoria roteiro.

Ali estava uma boa oportunidade para expor as contradições de um modelo de sucesso ocidental transportado para um país fundamentalista e conflagrado como o Afeganistão. Mas “Rock the Kasbah” só se interessa por balançar sua coqueteleira de clichês, onde astros como Bruce Willis, Kate Hudson e Zoey Deschanel batem cabeça sem ter o que fazer.

Um comentário sobre “Pais no Brasil e uma piada ruim no Afeganistão

  1. Bill Murray é sempre um trunfo. Apesar do roteiro pífio há bons momentos nesse naufrágio no deserto. Observo que esses afegãos respiram mais dignidade do que os “anglos”(ELY AZEREDO).

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