Famílias lá e cá

Campo Grande, o novo filme de Sandra Kogut, é mais um tijolinho na construção dramatúrgica que o cinema brasileiro vem fazendo das relações contemporâneas entre classes sociais. É bem verdade que a questão de classe é bastante secundária na relação que se estabelece entre Regina (Carla Ribas), dona de casa de classe média de Ipanema, e as duas crianças deixadas na portaria do seu prédio, netas de uma ex-empregada. Há a questão da maternidade vicária, que aproxima o filme de Central do Brasil. E há também a separação de Regina e o difícil momento vivido com a filha. É semelhante a situação das duas famílias, ambas passando por um processo de desagregação.

De qualquer forma, Campo Grande investe na dualidade Zona Sul-subúrbio como canal por onde passam as semelhanças e diferenças. Nesse sentido, o longa ecoa um tanto do curta Lá e Cá, que Kogut fez com Regina Casé em 1995. É no trânsito entre esses dois polos que os personagens se observam mutuamente e põem à prova seus sentimentos e prioridades. Os vínculos tênues, mas incontornáveis entre patroa e empregada ficam patentes de maneira indireta através da prole da ex-empregada, que conserva na família de Regina uma referência.

A instabilidade de todos parece ecoar num Rio de Janeiro transformado em canteiro de obras, cenário cambiante onde uma moradia humilde pode desaparecer da noite para o dia, dando lugar a mais um empreendimento imobiliário. O uso criterioso da tela panorâmica realça a sensação de extravio vivida pelas crianças na Zona Sul e por Regina na Zona Oeste. Da mesma forma, o espectador se sente frequentemente levado a compreender a ação através de frestas, fragmentos de conversas, imagens que parecem querer fugir ao nosso olhar.

A ausência de maniqueísmo e de resoluções melodramáticas é um dos grandes trunfos do filme. Os personagens estão mergulhados em suas questões próprias e, ao se cruzarem, não abrem mão delas em benefício de um projeto sentimental ou de algum tipo de redenção.

Sandra Kogut leva para o contexto urbano a sensibilidade com o elenco infantil já demonstrada em Mutum (por sinal, baseado numa novela de Guimarães Rosa chamada Campo Geral). Preparadas por Fátima Toledo, as crianças Ygor Manoel e Rayane do Amaral atuam no mais espontâneo naturalismo, sendo que Ygor comparece em quase todas as cenas, sempre com o tempo, o olhar e o tom de voz impecáveis. Na caracterização de personagens, faltou talvez um pouco mais de fidelidade à forma de agir do pessoal do subúrbio, normalmente mais expansivo do que está no filme.

Campo Grande é seco e suave, desprovido de extravagâncias visuais ou trilha sonora, mas com uma expressiva paisagem sonora da cidade. Duas canções sublinham momentos de intensa emotividade entre personagens, substituindo com muito ganho uma enxurrada de palavras inúteis. O essencialismo de Sandra Kogut faz um profundo bem.

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