Cuba: imobilidade e movimento

Como a maior parte do cinema cubano mainstreamÚLTIMOS DIAS EM HAVANA exibe a precariedade da vida na ilha com o cuidado de relativizá-la por demonstrações de afetividade coletiva. Nesse novo filme, Fernando Pérez retoma personagens do seu “Suíte Havana” (2003) e homenageia o protagonista homossexual de “Morango e Chocolate” (1993), do seu mestre Tomás Gutierrez Alea e Juan Carlos Tabío. O contexto é o de Cuba pós-Fidel e pós-Obama, quando as desigualdades se acirraram e as oportunidades de emigração aumentaram.

Um tanto esquematicamente, Pérez desenhou o filme em função da dicotomia imobilidade-movimento. Diego está preso a uma cama vitimado pela Aids (embora o ator Jorge Martinez pareça robusto e saudável demais para um aidético terminal). Sua imaginação, contudo, pulsa a mil, movida pela memória de uma vida animada e a fantasia de ainda cruzar com um mulato bem dotado. Bem ao contrário, seu amigo Miguel (Patricio Wood), homem assexuado, triste e opaco, caminha pela cidade como um zumbi, distante de tudo o que vibra. Nada sabemos do passado desse cavaleiro solitário, nem das origens de sua devotada amizade por Diego, mas apenas que junta dinheiro e espera um visto para os EUA.

Através do olhar mudo de Miguel – que lembra o Transeunte de Eryk Rocha –, vislumbramos vinhetas de uma Havana neorrealista, vivendo a dinâmica da carência e da solidariedade, adaptando-se como pode a formas rudimentares de economia privada. Uma paisagem onde cabem garotos de programa, bicitáxis e roubo de alimentos para revenda. A atração exercida pelos EUA parece ter soterrado quase completamente a rejeição alimentada pelo processo revolucionário.

Entre os dois polos representados por Diego e Miguel surge, em dado momento, um terceiro na figura de Yusisleidis (Gabriela Ramos), adolescente sem papas na língua que personifica uma concepção contemporânea do libertário. Ela não tem mais vínculos com as gerações que viveram a revolução e será a herdeira de um país cujo rumo ainda se desconhece. O desencanto do presente e a incerteza quanto ao futuro são as notas dominantes desse melancólico instantâneo cubano.

 

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