Um escritor marginal na URSS de Brejnev

A relativa liberalização do regime soviético na era Kruschev – cujo início é visto em chave de comédia no filme A Morte de Stalin, também em cartaz no Brasil – não resistiu à chegada de Leonid Brejnev ao poder. Os rigores do realismo socialista voltaram a se impor sobre os artistas e escritores. DOVLATOV se passa durante seis dias de novembro de 1971, quando o jornalista e escritor Sergei Dovlatov (1941-1990) tentava em vão estabelecer-se no mundo literário oficial de Leningrado, hoje São Petersburgo.

De ascendência armênio-judaica numa sociedade discriminadora e antissemita,  avesso às demandas dos editores e da União dos Escritores da URSS, Dovlatov não conseguia ter sua prosa publicada. Admirador de Tchekhov, recusava-se a atender às exigências de uma literatura otimista, heróica e deprovida de referências religiosas e “significados ocultos”. Divorciado e com uma filha, sobrevivia escrevendo reportagens para um jornal de fábrica e tinha estranhos sonhos em que via Brejnev lhe pedindo conselhos de estratégia em troca de promessas profissionais.

O ator Milan Marić, no papel de Sergei Dovlatov, não sai de cena em nenhum momento. Por ele passa toda uma cena das artes marginais de Leningrado naquele momento. Saraus de poesia, sessões de jazz e muita conversa sobre o mercado negro servem de compensação para as frustrações de escritores, pintores e músicos não aceitos pelo circuito estatal. O grande poeta Joseph Brodsky (Artur Beschastny), por exemplo, ganha a vida dublando poemas na boca de atores de filmes. O também poeta Anton Kuznetsov (não sei se real ou ficcional) dá duro na construção do metrô. “Somos a última geração capaz de salvar a literatura russa”, diz alguém a certa altura. Sou capaz de apostar que estava certo.

Na sequência em que Sergei visita uma filmagem, vemos o esforço da arte oficial em incorporar os ícones tradicionais da Rússia aos valores da ideologia dominante. Assim é que Tolstoi, Puschkin e Dostoievsky aparecem recriados com falas de enaltecimento do trabalho em prol do socialismo.

Assim como Afterimage, do polonês Andrzej Wajda, DOVLATOV é um filme de crítica ao sistema das artes no período comunista. Mas não faz isso de maneira panfletária nem, como Wajda, melodramática. Apesar da coloração fria das imagens, com predominância de amarelos e brancos, além de uma névoa permanente que parece invadir também os interiores, o tom do filme é mais para a crônica social, com lances de comédia e frequentes desvios para o campo do onírico. Por mais de um momento, lembrei-me da atmosfera um tanto irreal do Oito e Meio de Fellini, com Dovlatov atormentado pelas condições de criação e pelas mulheres que circulavam ao seu redor.

A cinematografia é um espetáculo à parte. A câmera flutua unindo módulos diferentes de ação em longos e intrincados planos-sequência, com um trabalho de foco e movimentação de atores não menos que excepcional. Nesse trabalho estético desafiador, na manutenção de uma densidade peculiar e nas alusões constantes ao universo das artes, o filme se alinha a uma tradição do cinema russo moderno.

Por fim, é preciso chamar atenção para o fato de que o diretor Aleksei Guerman Jr. é filho do célebre Aleksei Guerman (1938-2013), autor de clássicos como Meu Amigo Ivan Lapchin e É Difícil Ser um Deus, exte exibido na recente Mostra Nouvelle Vague Soviética. Pai e filho comungam a estatura autoral, a veia crítica e muito do estilo de filmar.

Os letreiros finais informam que Dovlatov só pôde ser publicado na URSS após a sua morte. Não menciona, porém, que teve 15 livros editados nos EUA e na Europa depois que emigrou para Nova York em 1979 com a mulher e a filha.

 

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