Tchekhov na periferia de BH

Tchekhov na periferia de Belo Horizonte? Não sei se mais gente viu semelhanças entre BARONESA e a peça “As Três Irmãs”. No filme de Juliana Antunes, Andréia e Lidiane são duas amigas e vizinhas, quase irmãs, moradoras de uma favela no bairro Juliana. De cabeças bem diferentes mas muito cúmplices, elas de alguma maneira se complementam no dia a dia. Lidiane tem quatro filhos, dos quais parece mais uma irmã que uma mãe. Um pouco mais velha e mais objetiva, Andréia quer se mudar para Baronesa (bairro de Santa Luzia, uma cidade próxima) para fugir de uma guerra de gangues que se anuncia. Já ocupou um lote e planeja construir – ela mesma – sua nova casa.

Não só Baronesa é para Andréia como a ansiada Moscou para as irmãs tchekhovianas, mas todo um repertório de questões femininas abordadas pelas moças mineiras ecoa temas do escritor russo: o amor, o peso e o vazio da vida, a fragilidade humana, o desejo de encontrar um lugar mais feliz. Em vez do filosófico comandante Verchinin, temos “Negão”, um astucioso soldado do tráfico, grampeado a uma tornozeleira eletrônica, que flerta com várias moças do local.

BARONESA é tchekhoviano sobretudo na atenção dedicada àquelas almas de mulheres que veem a mocidade ir ficando para trás e se perguntam sobre o futuro. Falam dos parentes que já morreram e dos que estão presos à espera de suas cartas e eventualmente de algo mais, escondido nas entranhas da mulher visitante.

A violência é assunto obsessivo, seja como fator de medo, seja como brincadeira. Em dado momento, um tiroteio interrompe bruscamente uma conversa e chacoalha o delicado amálgama de encenação e flagrante armado com extrema habilidade por Juliana Antunes. Uma câmera sempre fixa, uma luz estudada que às vezes lembra a pintura holandesa – e ali dentro as fatias de vida dessas mulheres, entre a inocência e a inércia, a coragem e a melancolia.

O filme cativa pelo que traz de linguagem oral e de silêncios ressonantes; pelo que capta de intimidade e espontaneidade de suas protagonistas, bem como pela poesia aleatória, por exemplo, do olhar mudo e inquiridor de uma criança ao seu redor. BARONESA é ao mesmo tempo ousado e respeitoso quando se trata de revelar a privacidade das personagens. E sutil na indicação de um fato trágico. Seus méritos já foram reconhecidos com prêmios na Mostra Aurora de Tiradentes e em festivais de Marselha e Valdívia. No último Janela Internacional de Cinema de Recife, o júri do qual participei conferiu-lhe uma menção honrosa.


Junto com BARONESA está sendo exibido o curta TRAVESSIA, de Safira Moreira. A partir da escassez de fotos de sua família, Safira construiu um sucinto ensaio sobre o apagamento dos negros na memória fotográfica brasileira. O filme tem parentesco com “Babás”, de Consuelo Lins, mas avança além da constatação etnográfica. Ao construir quadros vivos de casais e famílias negras contemporâneas, Safira faz um pequeno manifesto de afirmação e beleza.

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