Caçadores caçados

SAFÁRI é mais um exemplo do cinema impiedoso do austríaco Ulrich Seidl. Eis um cineasta desprovido de qualquer pejo para exibir a miséria humana – especialmente a europeia – em suas diversas acepções. Esse último filme conversa de viés com outros dois trabalhos seus: o ficcional Paradise: Love, em que uma cinquentona austríaca viaja ao Quênia em turismo sexual, e o documental Amor Animal, sobre relações excêntricas entre pessoas solitárias e seus animais de estimação. SAFÁRI mostra casais e famílias que admiram profundamente os animais selvagens africanos. Ao ponto de matá-los.

Em campos de caça da Namíbia e da África do Sul, turistas ricos se divertem atirando em zebras, girafas, impalas, gnus e outras espécies em vias de extinção. O objetivo não é a captura, mas o abate puro e simples, seguido da orgulhosa fotografia ao lado do bicho morto e, quiçá, da decapitação para fazer um troféu. Enquanto eles saem com seus rifles poderosos à espreita da caça, Seidl os captura com sua câmera. A operação cria uma linha de continuidade entre as duas espécies “caçadas”. De volta ao alojamento, os caçadores conversam sentados lado a lado diante de uma câmera frontal que os enquadra como os demais animais empalhados na parede por trás. O desprezo do diretor por seus personagens frequentemente repulsivos transparece nesse tipo de tratamento cru, distanciado e ao mesmo tempo irônico.

E o que eles falam? Comentam os preços dos distintos animais no mercado, discutem as melhores armas e munições para furar o couro de uma girafa, enumeram justificativas para seu passatempo (“ajudamos a propagação das espécies”), analisam as emoções que precedem e sucedem o tiro “limpo”, aquele que atinge o coração e mata mais rápido. Estamos diante de uma patologia predatória, na qual uma eventual culpa – se existe – é logo dissolvida em afagos e elogios ao animal recém-fuzilado.

SAFÁRI é um filme chocante e perturbador em cada um de seus movimentos. Perturba com o cruel regozijo dos caçadores e suas conversas absurdas. Choca com as cenas de caça, animais agonizantes e o impressionante descarnamento de uma girafa. Ulrich Seidl não observa limites quando se trata de expor atrocidades e as mentalidades indigestas que as produzem.

No contexto da exploração da África, o racismo também ganha destaque através de comentários preconceituosos dos turistas europeus. Os empregados nativos cortejam os brancos em suas “aventuras”, depois encarregam-se do trabalho sujo nos bastidores e são autorizados a levar para casa as partes menos nobres dos animais. A eles Seidl também dirige seu olhar instigador, fazendo com que posem para a câmera comendo como selvagens. É quando o cineasta, ao fingir esposar um ponto de vista etnocêntrico, passa do lugar de observador implacável para o de provocador ambíguo. Quem pensar em Sérgio Bianchi está no caminho certo.

As declarações que talvez resumam melhor a “mensagem” de SAFÁRI são as do proprietário do Leopard Lodge, perto do final: “Proteger os animais a qualquer custo não faz sentido. A Natureza está sobrecarregada. Mas ainda pior do que os animais é a espécie humana. Tem gente demais. Se desaparecêssemos, seria melhor para o mundo.” Diante do que mostra esse filme, a gente tende a concordar.

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