Lama, sangue e amoralismo

MONOS: ENTRE O CÉU E O INFERNO no streaming

Ingrid Bettancourt e Clara Rojas, ex-prisioneiras das Farc, podem ter inspirado a personagem da engenheira americana detida como refém nas montanhas de um país latino-americano não identificado, pivô do longa colombiano Monos: Entre o Céu e o Inferno. Em suas memórias, Ingrid conta que os seus piores carcereiros eram garotos. Costuma ser barato para as guerrilhas ter soldados mais jovens nos trabalhos de retaguarda.

No filme de Alejandro Landes (diretor nascido em São Paulo), a “Doutora” (Julianne Nicholson) é guardada por oito adolescentes embevecidos pelo poder que exercem no esconderijo e pela sensação de liberdade que desfrutam numa espécie de microssociedade só deles. As ordens só lhes chegam pelo rádio ou por esparsas visitas de um comandante interpretado pelo ex-guerrilheiro real Wilson Salazar, um anão. Nessas ocasiões, são submetidos a treinamentos rigorosos.

Embora se reporte em entrevistas à longa guerra civil na Colômbia, Landes pautou seu filme em possibilidades em aberto. O grupo parece uma composição de várias caracterizações de adolescentes em guerra. Desconhecemos o tempo e o lugar em que se passa a ação, já que a caracterização dos seis meninos e duas meninas não tem traços precisos além do idioma espanhol. Não sabemos a coloração ideológica dos rebeldes, nem contra quem eles lutam. Resta dúvida até quanto ao gênero de um dos personagens centrais, chamado de Rambo. Por vezes, nem mesmo estamos certos de ver a realidade ou delírios ao som da trilha alucinógena da inglesa Mica Levi.

Mais relevante ainda é a ausência de parâmetros morais nas tortuosas relações de amizade, sexo e fidelidade do grupo. Após um acidente com algo precioso também deixado à sua guarda, os fatos se precipitam numa cadeia de delações, punições, suicídio, sublevação e uma tentativa de fuga da refém. À falta de contexto e objetivos claros, ficamos entregues a sucessivos rituais de intimidação e  brutalidade dos “macacos”, tudo apresentado sob uma aura de inocência e decorado com rostos cobertos de lama e sangue. Cresce, então, a impressão de que o filme mais explora que avalia a questão dos menores em guerra, tomando por base o modelo dos reality shows de sobrevivência.

Monos ganhou um Prêmio do Júri em Sundance e o de melhor filme do Festival de San Sebastián, além de acolhida mista da crítica internacional. Ao contrário de Apocalypse Now e O Senhor das Moscas ­– com os quais Monos tem sido aproximado – não há aqui uma base mítica ou psicótica que sustente o quadro. Pode ser um custo alto para as imagens poderosas que Landes constrói nas exóticas locações no Parque Nacional Chingaza e em Antióquia, na Colômbia. A qualidade da aventura é garantida. Só faltou dizer o que fazer com ela.

>> Monos: Entre o Céu e o Inferno está nas plataformas Belas A La Carte, Net Now, VivoPlay, Looke e SkyPlay.

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