Cabeças feitas na diáspora congolesa

SETE CORTES DE CABELO NO CONGO no Olhar de Cinema – vencedor da competição brasileira.

Não é bem no Congo, mas em Brás de Pina, bairro da Zona da Leopoldina carioca, que fica o salão do Mestre Pablo (Fernando Mupapa). Mas é no Congo sim, pois ali no salão se respira a identidade congolesa. Brás de Pina tem uma significativa comunidade de exilados da República Democrática do Congo. E é no Salão Calijah que eles fazem a cabeça.

O filme de Luciana Bezerra, Gustavo Melo e Pedro Rossi (os dois primeiros ligados ao Grupo Nós do Morro) finca a câmera no interior do salão e usa os cortes como pretexto para ouvir histórias de imigração e indignação com o colonialismo europeu na África. O dispositivo lembra o que Emilio Domingos utilizou em Deixa na Régua, mas apontado aqui para o discurso contra o neocolonialismo.

São sete módulos, como diz o título. Sete clientes se sentam na cadeira de Fernando. Ora se discute ardentemente sobre divergências entre os próprios congoleses, ora se clama ardorosamente pela união dos países africanos contra a dominação do Ocidente e se critica uma independência política que não foi acompanhada pela independência econômica. Ora se conta como chegaram ao Brasil em longas viagens de fuga, ora se debate se o Flamengo é um time que merece a torcida da gente preta.

O onipresente Mestre Pablo é um personagem fabuloso. Artista plástico, cantor exímio e ex-combatente que diz já ter ensinado artes marciais a soldados angolanos e cortado cabeças de estupradores, ele incendeia a tela com sua fala contundente e fervorosa. Seus alvos são não somente os colonialistas europeus e norte-americanos, mas também os líderes africanos e sul-americanos que se curvam às ingerências dos poderosos, inclusive na subserviência idiomática.

De vez em quando o filme nos transporta para o Congo, como a buscar ecos longínquos do que se fala em Brás de Pina. O trânsito entre o Brasil e o exterior tem sido frequente nas últimas produções da Coevos, capitaneada por José e Isabel Joffily. Soldado Estrangeiro, Caminho de Volta, Depois da Primavera, Olhos Azuis e Sinfonia de um Homem Comum são exemplos dessa saudável inclinação. Sete Cortes de Cabelo no Congo é um oportuno e delicioso insight numa vertente da imigração pouco conhecida entre nós. História da África. Coisas que devíamos estar ensinando nas escolas.

>> Sete Cortes de Cabelo no Congo pode ser visto aqui, só até as 23h59 de hoje, quinta, 9/6.

2 comentários sobre “Cabeças feitas na diáspora congolesa

  1. Somente você, Carlinhos, para ter esse olhar agudo, ágil e circundante, para “sacar” e nos revelar, como o verdadeiro periscópio giratório ambulante que é, com esse breve texto, a existências dessas figuras anônimas interessantíssimas, “desfilando” seus talentos e “dançando conforme a música”, nas “quebradas” desse Rio-Maravilha, de tantas surpresas, loucuras e “fora de prumo”, onde milhões de suburbanos continuam esquecidos pelo poder público, além de esnobados por grandes contingentes de “bacanas” da Zona Sul, mas não “entregam a rapadura”, como vemos com esses bravos batalhadores congoleses, ainda que ostentando, discretamente, uma orgulhosa “griffe” carioca suburbana. Isso é matéria que um Lima Barreto também gostaria de assinar, com suas tintas candentes, sensíveis e eternamente reivindicatórias . Parabéns!

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