O rio é memória
Na cena de abertura, uma canoa vazia é levada pela correnteza de um rio. A imagem, recorrente no filme, é uma metáfora da viagem de rumo desconhecido empreendida pela expedição Roosevelt.
Joel Pizzini, cineasta devotado ao Mato Grosso do Sul, onde cresceu, já havia dirigido um documentário sobre o mato-grossense Rondon. Em Rio da Dúvida, o criador do Serviço de Proteção aos Índios divide o protagonismo com Theodore Roosevelt, caracterizado mais como um caçador de animais raros do que como um explorador geográfico. De fato, o ex-presidente dos EUA e sua trupe mataram centenas de jacarés e levaram cargas de animais para os museus estadunidenses. Em troca, a expedição possibilitou o conhecimento de várias espécies, além da determinação da nascente do Rio da Dúvida no estado de Rondônia.
Não é fácil fazer um balanço das perdas e ganhos da histórica expedição (científica ou meramente exploratória?). Nem tampouco do papel de Rondon na difícil harmonização entre desenvolvimento e proteção que pautou seu vínculo com os índios. A intenção de criar uma tropa indígena para lutar na I Guerra e a imposição de roupas às tribos são fatores mencionados, mas Pizzini não entra fundo nessas searas. Coloca, sim, em discussão outra conciliação complexa do marechal: o cientificismo positivista e a fé cristã.
A intenção de Pizzini foi sobretudo evocar o caráter épico da aventura e ligá-la ao presente. Ao mesmo tempo, trouxe à luz um acervo extraordinário de filmagens do início do século XX, em sua maior parte feitas pelo Major Tomás Reis na abertura das linhas telegráficas ou pertencentes ao acervo do pioneiro cineasta Mario Civelli, que foi amigo de Rondon.
Um dos mais autenticamente inventivos realizadores brasileiros, Pizzini trabalha na intercessão entre vários tipos de material e várias linhas narrativas. Rio da Dúvida é um filme de camadas, que se alternam num fluxo sempre coerente e atraente.
Os arquivos são a estrela absoluta. Os filmes dos anos 1910 e 1920 foram reenquadrados para a tela panorâmica a fim de restituir a grandiosidade da selva e dialogar sem quebra com imagens recentes. A voz de Rondon, desconhecida até pouco tempo atrás, pontua o documentário com uma gravação encontrada pelo diretor no Museu do Índio. A expedição foi dramatizada com atores (Rodolfo Vaz como Rondon, Xando Graça como Roosevelt e André Guerreiro Lopes como Tomás Reis) em vinhetas rodadas nos mesmos locais por onde passou.
Arquivos, memórias e encenação se entrecruzam, eliminando o vácuo temporal. Os atores, em seus papéis de época, interagem com indígenas contemporâneos, que circulam na fronteira entre a fabulação e a crença mítica na permanência dos espíritos. Assim o filme se coloca num lugar mágico, quase sobrenatural, sem limites precisos.
Como no seu magnífico 500 Almas, Pizzini aciona uma série de vozes narradoras, além da do próprio Rondon e de anotações suas ditas por Élcio Romar. Três netas do marechal contam detalhes de conhecimento familiar. Indígenas idosos do tempo do SPI e líderes das nações Nambikwara, Pareci, Sabanê e Cinta-Larga reafirmam a importância de Rondon (ou “Yhul Turundê” para os Cinta-Largas) na história de suas tribos e relatam mitos fundadores de suas etnias – histórias que Rondon sempre lutou por preservar.
Há também a voz de pesquisadores do Museu do Índio e do Museu Nacional (filmado antes do incêndio), uma vez que, para Pizzini, o âmbito do estudo fica sempre paralelo à instância das manifestações originais. Juntem-se a isso as falas magnas de Darcy Ribeiro – uma espécie de herdeiro de Rondon -, Claude Lévi-Strauss e Orlando Villas-Boas.
Pizzini foge das cabeças falantes como o diabo da cruz. Daí que esse coro de vozes se apresenta como um tecido sonoro quase sempre subjacente às imagens. A voz humana e a música de Villa-Lobos, Guerra-Peixe, Donizetti por Enrico Caruso, mais a trilha original de Lívio Tragtenberg dão ao filme uma sonoridade de ópera na selva. Fundamental para esse efeito majestoso é também a fotografia deslumbrante de Luís Abramo, com requintes de luz à maneira de Mario Carneiro,
A mensagem de Rondon e os ecos da Expedição Roosevelt ressoam na atualidade das tribos, como se vê na controvérsia do garimpo em terras dos Cintas-Largas ou na opção dos Parecis por explorar o turismo cultural. Rio da Dúvida religa os diversos tempos através da arte do cinema. Apesar da sua canoa estar ao léu nas águas, Pizzini nos restaura um senso de propósito e continuidade muito útil para os desafios que hoje se colocam para os nossos povos originários.
08/10/2023 – Estação NET Gávea 1 – 16:00
08/10/2023 – Estação NET Gávea 3 – 16:00
14/10/2023 – Estação NET Rio 2 – 17:00






