É Tudo Verdade: “Fordlândia Panacea”

Dois olhares estrangeiros se cruzam em Fordlândia Panacea. Na origem, o propósito do estadunidense Henry Ford em criar uma cidade-empresa na Floresta Amazônica para explorar borracha em fins dos anos 1920. De outro, o interesse da cineasta portuguesa Susana de Sousa Dias em sondar hoje os ecos daquele projeto que fracassou poucos anos depois e deixou uma história e muitas ruínas no Pará.

Susana não é uma documentarista convencional. Depois de uma introdução com imagens de arquivo reconfiguradas, ela parte para uma evocação meio fantasmática de uma cidade-fantasma. Drones vasculham lentamente o distrito como se fossem uma presença misteriosa. As imagens se demoram sobre ou sob árvores, entre vestígios de um antigo cemitério ou sobrevoando um grande galpão arruinado.

Enquanto isso, vozes desencarnadas desenterram memórias de saque e de exploração trabalhista pel“os americanos”, falam de ouro transportado em túneis, indígenas retirados de suas terras, almas transformadas em borboletas. São ressonâncias de um projeto colonialista que ainda ecoam na comunidade hoje pacata e dedicada à reconstrução e ao reflorestamento.

O espectador é levado a absorver dois discursos paralelos: as imagens que tendem ao hipnótico e os relatos em off, sem que haja relação palpável entre uma coisa e outra. Resulta disso mais um exercício de estilo do que uma investigação sólida sobre o que restou da utopia Fordlândia. A ideia de uma cidade-fantasma não se concretiza na tela, ficando mais como referência a um momento intermediário que está fora do filme.

2 comentários sobre “É Tudo Verdade: “Fordlândia Panacea”

  1. Antes tivemos o longa Beyond Fordlandia, de Marcos Cólon, que exibimos com debates aqui em Manaus e em toda Amazônia.

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