O entusiasmo artístico pode ser fonte de vida para quem o possui, mas não cura transtornos mentais nem o desejo de morte. O documentário Benita ilustra bem essa dicotomia na figura de Benita Raphan, cineasta, fotógrafa, designer e dog lover que se enforcou aos 59 anos em seu apartamento de Nova York.
Com sua aparência andrógina e um talento nato para a criação, Benita atuou na vanguarda nova-iorquina dos anos 1990 depois de passar dez anos em Paris como designer de moda. Seus filmes, todos de curta metragem, eram biografias experimentais de “mentes excêntricas e incomuns”, como as de Emily Dickinson, John Nash e Buckminster Fuller. Alguém a definiu como uma cientista no corpo de uma artista. Outrem a chamou de “um verbo irregular”.
O veterano documentarista Alan Berliner, expert na abordagem de histórias pessoais e familiares, foi amigo, mentor e parceiro de Benita em vários trabalhos. Quando ela morreu, sua família pediu a Berliner que concluísse o filme que ela vinha preparando, chamado An Interesting Question, sobre a vida interior dos cães. Em vez disso, ele preferiu fazer um filme sobre ela. Algo capaz de dar sentido a sua vida e a sua morte.
Benita, o filme, foi construído com fragmentos de trabalhos de Benita – filmes, fotografias, desenhos, anotações, correspondência. Afora isso, somente algumas entrevistas com parentes, amigos e colaboradores. Essa opção, que justifica o crédito de codireção para ela, ressignifica muito do material que vemos. O que era criação, reflexão ou desabafo de cada momento passa a ser dado biográfico segundo uma organização alheia, a de Berliner.
Ele faz isso com a habilidade suficiente para remontar os arquivos sem trair o misto de elegância e inconformismo contido na produção original de Benita. Ao mesmo tempo, Berliner expõe sua perplexidade com o desfecho da vida dela e com o seu próprio desconhecimento do mal-estar existencial da amiga. É então que ele vai recolher os sinais de ansiedade, solidão e depressão, as notas e pistas de conteúdo suicidário espalhadas em seus escritos.
Em janeiro de 2021, com seu estado agravado pelo isolamento da pandemia, Benita desistiu de viver. O filme de Alan Berliner é um gesto amoroso em prol de sua memória e de sua arte. Singelo adeus a uma mulher imprevisível até o fim.




