Infelizmente o Rio mais uma vez vai ficar privado da Mostra Ecofalante de Cinema, que se realiza de 28 de maio a 10 de junho em São Paulo. Já em sua 15ª edição, o evento especializado em temas socioambientais vai reunir 104 filmes de 27 países com entrada gratuita. Uma série de debates vai discutir emergência climática, conflitos no Oriente Médio, colonialismo, educação, ativismo feminista, saúde mental e democracia Veja a programação completa no site da mostra.
Segundo o release oficial, a programação de filmes apresenta produções premiadas e inéditas, incluindo títulos vencedores do Oscar e destaques em festivais como Cannes, Sundance, Locarno, Montreal, Guadalajara e Tribeca, além de obras selecionadas para Berlim e Roterdã.
Entre os títulos mais atraentes, eu já pude conferir dois longas-metragens que de certa maneira dialogam entre si. Arquivo Vivo, de Vincent Carelli e Ana Carvalho, e Nossa Terra, de Lucrecia Martel, tratam de direitos e identidade de povos originários, exploram fotografias e vídeos pré-existentes e dividem um nome da equipe técnica.
Arquivo Vivo, em oposição a arquivo morto, define bem o trabalho de Vincent Carelli na construção de uma memória indígena para os próprios indígenas em primeira instância. A devolução das imagens às tribos documentadas, princípio fundamental do cinema etnográfico, sempre foi uma prática nos filmes da Vídeo nas Aldeias. Mas nesse novo longa-metragem, o retorno é o mote único.
Em direção compartilhada com Ana Carvalho, idealizadora do projeto Arquivo Vivo, Vincent revisita cinco aldeias levando materiais filmados décadas antes. Organiza exibições em tela grande ou em computadores, assim captando as emoções, às vezes contraditórias, dos indígenas ao identificarem a si mesmos ou a seus pais e avós na tela. Alegria e tristeza se misturam. Um deles recomenda que não passem os filmes no telão porque a saudade fica maior.
A exibição de festas, rituais e hábitos de vinte ou trinta anos atrás reforça o sentido de origem e muitas vezes faz renascer o apelo das tradições. Há quem veja ali uma visita dos espíritos de seus ascendentes. Daí que façam filas de pendrives para Vincent copiar cenas que eles verão repetidas vezes em suas casas. Oficinas instruem o pessoal a preservar e utilizar os arquivos. Surgem os jovens que podemos chamar de influencers indígenas. Um deles fala da necessidade de editar as imagens: “Haja paciência para ver tudo”.
Além de lindíssimas imagens de sessões ao ar livre perante rostos emocionados ou extasiados, Arquivo Vivo traz cenas luxuriantes que não estão nos filmes mais conhecidos da Vídeo nas Aldeias, algumas filmadas em Super 8 ou VHS mesmo antes da existência do projeto.
Não faltam também imagens antológicas como o primeiro contato com um casal Kanoê na selva de Rondônia, ponto alto do longa Corumbiara (2009). Em seguida, vemos Vincent se reunir novamente com Purá e Txiramanty, trinta anos depois, para rever, entre risos, o medo que brancos e indígenas sentiram naquele momento histórico.
Se a paisagem de vários territórios está hoje tomada pelo agronegócio, e o aculturamento põe em risco a preservação da identidade desses povos, a tecnologia serve para reconectá-los com os antepassados e sua história. Arquivo Vivo mostra isso acontecendo em tempo real.
Uma comunidade indígena específica, os Chuschagasta, está no foco do primeiro documentário de longa metragem da argentina Lucrecia Martel. As imagens espaciais da Nasa que abrem o filme e o uso maciço de drones dão a amplidão do escopo pretendido por Nossa Terra (Nuestra Tierra).
Lucrecia parte do vídeo que testemunhou parcialmente o assassinato do líder indígena Javier Chocobar em 2009, durante uma refrega com três brancos que pretendiam abrir uma mina em suas terras já invadidas desde a época colonial. O filme se desdobra em três camadas que se alternam ao longo dos 124 minutos: uma reconstituição policial do incidente, cenas do julgamento dos três acusados nove anos depois e os testemunhos de vários “chuschas” sobre sua história, seus parentes e suas razões.
A diretora abre o leque numa abordagem larga, alheia a qualquer pressa, demorando-se nas fotos guardadas pelos indígenas e ouvindo seus relatos da vida como trabalhadores em Buenos Aires e da longa luta pelo direito ao lugar onde preferem viver. O belo vale da província de Tucumán é varrido pelos drones enquanto ouvimos ora os depoimentos no tribunal, ora as perorações dos “chuschas” sempre expressas num doce quase sussurro.
Eles foram dados como extintos sempre que novos donos se apropriavam de suas terras. Vemos até mesmo uma pintura numa igreja que mostra anjos expulsando os indígenas do território. Contra essa tradição colonialista se impõe a consciência de pertencimento da comunidade, até 2009 liderada por Javier Chocobar.
Um dos personagens cita seu filme predileto, o clássico Ben-Hur de William Wyler, como um antecedente da peleja de seu povo. O cinema se faz presente numa projeção armada para a galera. E também no questionamento de uma advogada durante o julgamento: “Estão fazendo um filme aqui e transformando a corte num circo”.
Lucrecia, porém, não se atém a essas autorreferências cinematográficas. Sua visão é excelsa, panorâmica, ajudada pela bela fotografia de Ernesto de Carvalho, o brasileiro que tem trabalhado com Vincent Carelli em Martírio, Adeus Capitão, e codirigiu o magistral A Transformação de Canuto.






