Um esteta das residências

ARTACHO JURADO – SINFONIA DE UM ARQUITETO

João Artacho Jurado (1907-1983) foi um arquiteto sui generis. Sem nunca ter tirado um diploma de Arquitetura, passou do desenho para a publicidade, projetou seu talento nas grandes feiras industriais dos anos 1940 e consagrou-se como arquiteto, incorporador e construtor no boom da verticalização paulista da década de 1950. Ele não apenas projetava sob encomenda, mas comprava terrenos e desenhava os edifícios que elevaram seu nome à esfera dos grandes estetas da construção de moradias.

As imagens bem compostas de Zé Mario Fontoura, editadas por Dellani Lima, captam todo o apelo visual das casas, predinhos e prediões em que Jurado não poupava cores, adornos, ondulações, superfícies vazadas e espaços atraentes que ainda hoje servem de cenário para filmes, clipes e ensaios fotográficos. Paulistanos e santistas reconhecem de longe edifícios como Cinderela, Bretagne, Viadutos, Planalto, Louvre, Enseada e Verde Mar. Construções que desagradaram os modernistas porque falavam mais ao prazer dos olhos e dos sentidos do que à limpeza das formas. O Edifício Louvre, por exemplo, tem a fachada inteiramente revestida de pastilhas cor de rosa.

No documentário Artacho Jurado – Sinfonia de um Arquiteto conhecemos um pouco da vida de um arquiteto sobre quem não se fala muito, embora se aprecie suas obras. Uma filha, uma bisneta, alguns colegas de profissão e outros conhecedores remontam sua trajetória, a par de uma história econômica de São Paulo no século passado. São coisas indissociáveis, uma vez que Jurado era um empreendedor de si mesmo através da Construtora e Imobiliária Monções S/A.

É interessante ver desfilar diante da câmera uma parcela da elite cultural paulistana, incluindo vários moradores dos edifícios abordados, falando sobre um modo de vida privilegiado. No entanto, a maioria dos edifícios residenciais de Artacho Jurado tinha apenas o que um dos entrevistados chama de “cosmética do luxo”. Na verdade, por mais criativos que fossem, se destinavam a classes variadas, muitas vezes abrigando no mesmo prédio apartamentos de tamanhos muito diferentes. Alguns edifícios se integram ao resto da cidade por meio de lojas e serviços diversos no piso térreo. A convivialidade era um valor nos seus projetos.

A música tem um lugar importante na criação de Jurado, aparecendo, entre outras coisas, no aspecto lúdico dos espaços coletivos e na sinuosidade das coberturas de terraços. O filme enfatiza isso na trilha sonora salpicada de música clássica e árias de ópera, paixões do arquiteto. Uma grande parede do apartamento onde ele morava era cravada por casulos para abrigar sua extensa coleção de discos.

A direção do documentário é assinada por Teresa Eça, sobrinha-neta de Jurado e mantenedora do acervo do tio-avô, e Pedro Gorski, realizador tarimbado em filmes sobre arquitetura e design, além de um dos fundadores do Festival Citronela Doc. A parceria foi perfeita para dar forma e espírito a um filme elegante tanto no que se diz como no que se mostra.

>> Artacho Jurado – Sinfonia de um Arquiteto está na plataforma CurtaOn (ClaroTV, Prime Video)

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