Notas sobre os filmes DIAMANTES e ERUPCJA
Os diamantes vestem Canova
O diretor turco-italiano Ferzan Özpetek chegou em Roma aos 19 anos para estudar cinema e moda. Se os figurinos sempre foram objeto de atenção especial em seus filmes, é com Diamantes (Diamanti) que ele rende pleno tributo a essa paixão. Pela primeira vez ele aparece diante das câmeras, no papel de si próprio. Na primeira sequência, está reunido com 16 atrizes, 11 das quais já haviam trabalhado em filmes seus. Ele explica que quer tratar agora “do poder e do trabalho das mulheres”.
Passamos, então, ao filme dentro do filme, do qual pouco sairemos. Estamos em 1974, no atelier Canova, dirigido com mão de ferro por Alberta (Luisa Ranieri) e com mão de seda por sua dolorida irmã Gabriella (Jasmine Trinca). Acima delas estão a exigentíssima e oscarizada estilista Bianca Vega (Vanessa Scalera) e o incontentável diretor do filme de época para o qual estão confeccionando os figurinos (Stefano Accorsi).
O atelier é “um vaginódromo”, como uma das atrizes define o elenco. Ferzan Özpetek, que é gay, aciona a mulherada com o maior colorido possível. Além da difícil relação entre as duas irmãs, há um velho namorado que reaparece para Alberta, a costureira que apanha do marido, a que tem um filho em depressão, a cozinheira maternal, duas divas da atuação que se odeiam, um menino escondido no atelier e uma jovem foragida da polícia que se revela um talento inesperado. Vez por outra, uns bofes de roupinha apertada dão as caras e atiçam a libido daquele gineceu.
Nada disso carrega substância dramática real. Diamantes não é mais que um divertimento de roteiro um tanto caótico e significado ralo. Já andaram filiando o filme às comédias de George Cukor e de Almodóvar, mas eu o aproximaria mais das variétés de François Ozon. Pode haver gratuidade, mas não há tédio nos 135 minutos de tagarelice. A quantidade de cenas em que a câmera fica circulando em torno das atrizes não recomenda o programa a quem tem labirintite.
Num filme sobre figurinos, esse item naturalmente ganha destaque. Afora duas ou três peças extravagantes para o filme dentro do filme, a criatividade de Stefano Ciammitti se mostra mesmo é nas roupas “comuns” das atrizes principais. Elas são os diamantes de Özpetek, que dedica o filme a três outras pedras preciosas do cinema italiano que já brilham em outra dimensão: Mariangela Melato, Monica Vitti e Virna Lisi.
>> Diamantes está nos cinemas.
Fagulhas afetivas em Varsóvia
ERUPCJA
A erupção mais recente do vulcão Etna, na Sicília, foi em 1º de dezembro de 2025. Naquele dia, Nel (Lena Góra) vendia flores em sua floricultura de Varsóvia. Enquanto isso, sua amiga de infância Bethany (interpretada pela cantora britânica Charli XCX) chegava à cidade com o namorado Rob (Will Madden). Não era a primeira vez daquela coincidência. Sempre que Nel e Bethany se encontravam, um vulcão entrava em erupção, daí o título polonês de Erupcja.
Dirigido, fotografado e montado pelo estadunidense Pete Ohs, Erupcja é um exercício narrativo modesto na produção, mas com certas ambições formais e um frescor bem-vindo. Tem uma pegada experimental no tratamento das imagens e procedimentos que às vezes lembram o Dogma 95, seja na instabilidade da câmera, seja no despojamento das ambientações. Nas ruas de Varsóvia ou nos interiores, o elenco atua numa chave de desafetação e improvisação que remete ao estilo de John Cassavetes. Até porque as atrizes e atores colaboraram na escrita do roteiro.
Tudo isso para desenrolar um fio de dissonâncias e consonâncias afetivas. Ao entrar na sintonia da amiga de longa data, com quem mantém uma relação amorosa sem sexo, Bethany já não se sensibiliza com o excesso de atenções do namorado. Rob pretende pedi-la em casamento numa Varsóvia supostamente romântica e tem toda a estada do casal planejada com reservas e horas marcadas. Um chato amoroso, enfim. Nel, por sua vez, recebe a visita de uma namorada intermitente e atende a um cliente cujo namoro está em risco mesmo com as flores que ele cuidadosamente seleciona para a amada.
Ou seja, estamos no terreno das pequenas histórias de amor atribuladas e das coincidências romanescas. Como cereja do bolo, uma narração onisciente que se torna cômica pela insignificância de algumas informações. Como essa: “Nel geralmente regava as plantas às terças, mas nesta semana regou na quarta. Ela esperava que as plantas não percebessem.”
Os insistentes merchandisings do Novotel dão a medida da singeleza da produção. E os vulcões interiores das personagens apenas ameaçam soltar lavas, mas tudo se limita a meras fagulhas.
>> Erupcja está nos cinemas.





A crítica a “Diamantes” tenta colocar o filme em um lugar menor. Entendo que o blog simpatize mais com militâncias e denúncias que, aliás, em seus excessos empobrecem muito a dramaturgia ficcional atual. Mas vejo espaço para todos. “Diamantes” também traz suas reflexões e não vejo como um filme ralo ou sem substância, palavras que sugerem a ocasional soberba do crítico.
Olá, Fábio. Agradeço seu comentário importante. Procuro não ser guiado pela “soberba”, mas sim pelo meu gosto e meus próprios graus de aferição. No caso de “Diamantes”, de fato não achei um sentido mais denso em meio aos esboços de melodrama. Mas posso estar enganado, o que é normal acontecer quando se trata de apreciações.