Entre dois mundos

SURDA

Estamos numa temporada repleta de filmes sobre as alegrias e agruras da maternidade. Basta citar Era Uma Vez Minha Mãe, Eclipse,Mãe e Filho, A Mulher que Chora, Mother’s Baby, Se Eu Tivesse Pernas Eu te Chutaria e Jovens Mães. A dramaticidade inerente ao assunto é intensificada quando a mãe ou a criança apresenta algum tipo de deficiência. É nessa prateleira que se encaixa o espanhol Surda (Sorda), que valeu a sua protagonista, Miriam Garlo, o Prêmio Goya de melhor atriz do ano passado.

Miriam é uma experiente atriz surda de teatro e estrelou o curta Surda, de sua irmã Eva Libertad, em 2021. As duas estenderam a parceria e o argumento para este longa-metragem sobre o desencontro entre os mundos dos deficientes auditivos e dos ouvintes. Um desencontro que se acentua após a maternidade.

Ainda durante a gravidez, Ángela era confrontada com o receio dos pais quanto a sua descendência. Já na cena do parto, que dura exasperantes seis minutos, fica desenhado o cerne do problema. Ángela depende dos sinais manuais do marido para seguir as instruções das enfermeiras, mas ele é afastado do seu campo visual nos momentos decisivos. Nascida a bebê, vem a expectativa sobre sua audição. Caso ela seja uma ouvinte, a mãe já se sentirá apartada desde o início.

As sinopses de Surda enfatizam a falta de inclusividade do mundo ouvinte, mas a questão central do filme não me parece ser essa, e sim a dificuldade de Ángela em aceitar sua “diferença” e tolerar minimamente a existência dos tais dois mundos. Desde criança, ela costumava esconder o aparelho auditivo sob uma bandana. Já adulta, recusa-se a usá-lo, até porque a experiência de audição pelo aparelho é estridente e angustiante.

Ángela só se sente bem numa pequena comunidade de amigos surdos. O casamento entra em crise por um misto de ciúme e sentimento de exclusão da parte de Ángela perante um marido afetuoso e dedicado (enfim, um filme em que o homem não é vilão…).

Realizado por uma equipe quase toda feminina, Surda impressiona sobretudo pela veracidade que passa na encenação. Há um substrato documental que transparece nas cenas coletivas. A discussão crucial do casal é um primor de atuação realista, onde o talento de Álvaro Cervantes e sobretudo de Miriam Garlo explode na tela com todo vigor.

É bastante efetiva também a súbita transferência do espectador da condição de ouvinte para a audição subjetiva de Ángela. Percebemos então as duas opções que lhe restam, entre não ouvir e ouvir com o aparelho. O choque nos ajuda a ter empatia com o drama da personagem e entender aonde o filme pretende chegar.

>> Surda está nos cinemas.

>> Sobre o assunto, recomendo muito o curta-metragem Dois Mundos, de Theresa Jessouroun.

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