Um estranho no ninho

FANON

Cobrindo apenas cerca de três anos na curta vida do pensador, psiquiatra e político martinicano, Fanon pretende condensar ali o essencial. Entre 1953 e 1956, Frantz Fanon (1925-1961) chefiou uma ala do Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville, numa Argel já sacudida pelos germes da luta pela independência. Ali ele se bateu pela reumanização dos pacientes, até então presos em masmorras escuras e tratados como animais. Ao mesmo tempo, escrevia seu clássico anticolonial Os Condenados da Terra.

O enfrentamento do racismo e das normas colonialistas da direção do hospital serviam como veículos para seu pensamento, citado literalmente no filme por meio de falas em off, numa conferência em que Fanon é hostilizado ou no hábito de ditar o texto para sua mulher branca datilografar. Os doentes mentais eram como uma metonímia para toda a população argelina, manietada em sua liberdade e calada em sua cultura pelo dominador francês.

Filho de pessoas escravizadas, Fanon trazia complexidade à análise do colonialismo. Segundo ele, o colonizador é também um alienado a respeito de sua situação. Dizia que o racismo era uma das formas como o colonizador inferiorizava o colonizado, tratando dele numa espécie de discurso zoológico. Por outro lado, afirmava que o olhar do colonizado é de luxúria e inveja do colonizador. A frustração desse desejo produzia a contraviolência anticolonial como única forma de libertação. O oprimido sempre se revolta.

Essas ideias levaram a filosofia de Fanon a ir mais longe do que aparece no filme de Jean-Claude Barny. Ele pregava abertamente a luta armada para os povos oprimidos e se engajou no processo de independência argelino. Não é à toa que o diretor do hospital o acusa de “confundir medicina com revolução”. Mas o roteiro desse filme congela um pouco o personagem numa postura empertigada e verbalizante. Resulta que o Frantz Fanon vivido por Alexandre Bouyer parece mais um conceito do que um homem de carne e osso.

Apesar dos resultados obtidos na rotina do sanatório, a impressão mais viva que fica é de impotência. É o que aparece no seus relacionamentos com a esposa (Déborah François), que o estimula a não desistir; com o líder revolucionário Ramdane (Salem Kali), traído por dissidentes da Frente de Libertação Nacional; com um assistente judeu (Arthur Dupont) e com o sanguinário sargento Rolland (Stanislas Merhar), personagem cuja curva dramática parece bastante inconvincente. O episódio com um interno sequestrado e morto pelos policiais dá mostras de uma debilidade prática que, ao mesmo tempo, confirmava algumas de suas teorias.

O filme, gravado majoritariamente em Túnis, tem uma boa produção e uma realização correta, mas sem brilho especial. A trilha musical é por demais presente, o que só agrava algumas passagens modorrentas. O elemento simbólico do caranguejo no mangue, possivelmente relacionado com a arapuca colonial ou mesmo com a ideia de morte, é insuficientemente desenvolvido. Da mesma forma, a personagem da médica Alice entra e sai do filme sem dizer a que veio. Ajunte-se o fato de Josie Fanon ser caracterizada como pouco mais que uma esposa-troféu.

De qualquer maneira, Fanon tem seu valor para quem quiser se iniciar no pensamento do filósofo a partir de seu trabalho na psiquiatria. Ilustra também algumas contradições da luta revolucionária e anticolonialista. É apenas a ponta do iceberg de uma teoria complexa que também reconheceu o papel do lumpenproletariado na descoberta da violência anticolonialista e criticou o intelectual colonizado.

>> Fanon está nos cinemas.   

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