Muybridge bárbaro

OS CAVALOS DE GOETHE
de Arthur Omar

O entusiasmo de Arthur Omar com esse seu novo trabalho é plenamente justificado. “Obra-síntese” e “testamento” são alguns dos termos que ele usa para dimensioná-lo. E de fato lá estão muitos traços importantes de sua ação em diferentes mídias: o caráter extático da junção de imagens e música; a aproximação entre o efeito digital e os cânones fundadores da imagem em movimento; as faces gloriosas; a ideia do combate esvaziado do aspecto espetacular e eivado de uma aura mítica; a intertextualidade como busca de uma expressão suprarreal; a proposta de uma percepção sensorial simultânea à percepção intelectual.

Goethe foi um poeta que se dedicou a reinterpretar o fenômeno da percepção das cores. T. S. Elliot foi um poeta que pensou a física e a metafísica nos seus Quatro Quartetos. Morton Feldman foi um músico que dissolveu os sistemas de composição do seu tempo e compôs um Quarteto de Cordas com seis horas de duração ininterrupta. Com esses três “parceiros”, Arthur Omar dedica-se a montar uma “Alquimia da Velocidade” (subtítulo do vídeo) a partir de cenas gravadas na sua já lendária viagem ao Afeganistão em 2002.

Trata-se de ver o esporte como um combate e o combate como um ato de cinema. O buzkaschi é o esporte national do Afeganistão. Numa arena, dezenas de cavaleiros disputam a carcaça de um bode, às vistas de uma plateia siderada. Arthur filmou o primeiro buzkaschi em Cabul após a queda dos talibãs, que o haviam proibido. Selecionou poucas imagens e montou uma suíte decomposta em movimentos lentíssimos, apenas interrompidos aqui e ali por súbitas e breves acelerações. No centro da arena, captados pela teleobjetiva, homens e cavalos se fundem num amálgama de carnes, panos e formas coloridas. Na plateia, em tratamento igualmente ralentado, homens vibram com o espetáculo ou encaram a câmera. A música de Morton Feldman e os versos de Elliot se alternam com trechos de um poema no idioma dári, que, sem legendas, servem apenas como elementos na formação de uma massa sonora impactante.

Descrever Os Cavalos de Goethe acaba sendo uma tentação vã, já que sua maior força está na energia poética que despeja sobre a sala de cinema. É a percepção do tempo e do movimento que se altera nesses tableaux quase imóveis, mas profundamente carregados de tensão e eletricidade. É a percepção do espaço que se intensifica na quase-tridimensionalidade das camadas de homens e cavalos, ou nos intrigantes efeitos de morphing, microfusões e inserções incluídos na edição que se sugere líquida. São os ecos das guerras no Afeganistão que nos chegam subliminarmente através daqueles corpos e rostos em lenta euforia. São os ecos do próprio cinema que se acotovelam nas cavalgadas de um Muybridge bárbaro ou nas irrupções ferroviárias de um Lumière digital.

Eu e alguns companheiros de sessão concordamos em que o grande efeito, o pleno poder de Os Cavalos de Goethe estão nos seus primeiros 50 minutos, havendo uma sombra de repetitividade e uma perda de potência nos 10 minutos finais. Seja assim ou não, acho que esse é o mais belo e vigoroso vídeo experimental do cinema brasileiro contemporâneo. E um dos melhores da carreira de Arthur Omar.                           

3 comentários sobre “Muybridge bárbaro

  1. Pingback: Meus melhores de 2011 « …rastros de carmattos

  2. Arthur Omar supera a dilatação do tempo e faz da imagem em decomposição uma composição musical retiniana orquestrada pela liberdade cinematográfica. Uma ópera ocular ousada e que desafia a capacidade de construção do filme pós-exibição; Peca mesmo em trazer a máquina de ferro (o trem) como metáfora dos cavalos, já que a sensação durante todo o filme é de que a imagem é algo epidérmico e caloroso aos olhos. O filme também cria uma película na memória de quem vê a partir da experimentação sonora. Imagem e Som como corpo e alma.
    Renato Vallone.

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