Substantivo concreto

Nos primeiros minutos de Reidy, a Construção da Utopia, a gente tem a impressão (desanimadora) de que vai assistir a mais uma biografia ilustrada pelo audiovisual. Felizmente, isso é passageiro. Ana Maria Magalhães, sobrinha do personagem, usa as sequências iniciais para se desvencilhar rapidamente de alguns dados biográficos e passar logo ao que lhe interessa de fato: recensear as ideias de Affonso Eduardo Reidy sobre arquitetura e urbanismo, assim como investigar sua permanência hoje em dia.

Ao caminho do didatismo ou do biografismo puro e simples, Ana Maria preferiu o do debate de conceitos. A conversa principal – e alguma polarização – se dá entre o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha e o francês Roland Castro. Rio de Janeiro e Paris (cidade natal de Reidy) servem de “campos” para projetar um pensamento contemporâneo sobre o desenho das cidades, a função social da arquitetura e o conteúdo (utópico?) de um urbanismo voltado mais para o bem-estar das pessoas do que para o apetite do mercado ou o desejo de controle do estado. Reidy, portanto, mais que um objeto em torno do qual o filme se fecha, é uma porta para discutir História, arte, técnica e perspectivas de um devir do homem na cidade.

A leitura de manuscritos de Reidy em primeira pessoa o inclui nessa conversa, fazendo a terceira ponta do triângulo de ouro. Enquanto as ideias fluem quase sem trégua, a câmera de Dib Lutfi passeia entre os pilares ou sobrevoa as principais obras do Rio de Reidy. Nesse aspecto, Ana Maria também optou pela concentração em quatro efemérides: os curvilíneos conjuntos habitacionais do Pedregulho (em São Cristóvão) e da Gávea, o Museu de Arte Moderna e o Parque do Flamengo. A engenheira Carmen Portinho, parceira de Reidy no Pedregulho e no MAM, ajuda a trazer lembranças históricas, ilustradas por um precioso material de arquivo sobre a derrubada do Morro do Castelo e a construção do Aterro.

Se a escolha de um formato próximo da palestra vai atender a uma demanda mais reflexiva e talvez frustrar alguma curiosidade biográfica, é em outro aspecto que localizo o maior problema do filme. Compreendo a intenção de fugir a uma ordenação mais óbvia das imagens, mas não creio que a montagem tenha sido a mais feliz. Há planos curtos demais para que se apreenda seu sentido. Como o material filmado privilegiou quase sempre o movimento, a concatenação de panorâmicas e zooms resulta muitas vezes brusca e incongruente, deixando de valorizar a elegância e a ousadia dos objetos arquitetônicos. Uma bela exceção é a sequência “musical” do MAM, quando fica evidente o prazer de um encontro harmonioso entre a câmera e as formas. Apesar do arrojo dos planos aéreos e dos deslocamentos terrestres, a qualidade final da imagem de vídeo na tela grande não faz jus ao padrão do grande Dib Lutfi, aqui em um de seus últimos trabalhos antes de se afastar por problemas de saúde.

Descontados esses senões técnicos, é preciso reconhecer a distinção dessa abordagem de uma figura célebre com elogios substantivos concretos, distantes da louvação oba-oba de outros filmes do gênero. Reidy foi eleito pelo júri o melhor documentário do Festival do Rio 2009. Cabe, aliás, destacar o sabor carioca trazido pela junção de paisagens, obras e música. Eu jamais pensei que sairia assobiando de um doc sobre arquitetura.
Visite o blog do filme.

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