20 anos de teatro cidadão

Cena de "Olga Benário - Um Breve Futuro"

De Brecht à Bósnia, de Lima Barreto a Heiner Müller, de Martins Penna a João Cabral de Melo Neto, o repertório da Companhia Ensaio Aberto é um elogio do teatro como mix de divertimento e reflexão política. Luiz Fernando Lobo, Tuca Moraes e sua trupe estão há 20 anos na estrada e comemoram a data com um belo livro sobre sua trajetória. O lançamento será na próxima sexta-feira, às 19 horas, na Livraria Travessa do Shopping Leblon.

A documentação do fazer teatral é sempre uma forma precária, mas a única, de preservar o que nasceu para durar apenas uma temporada. A Ensaio Aberto teve o privilégio de ter seus 20 espetáculos fotografados por Antonio Augusto Fontes. Esse material, junto com o de outros fotógrafos (a companhia sempre permitiu a qualquer um registrar seus espetáculos), faz as delícias visuais do livro. De resto, há textos de Lionel Fischer, Iná Camargo Costa, Felipe Radicetti, Pedro Tierra, Batman Zavarese e Tuca Moraes sobre vários aspectos do trabalho e uma entrevista de Luiz Fernando Vianna com o diretor do grupo.

Assisti a muitas montagens da companhia (leia sobre a última de Missa dos Quilombos) e testemunhei como eles se lançaram com enorme apetite a vários formatos teatrais. Cemitério dos Vivos (sobre Lima Barreto) e A Missão (de Heiner Müller) explodiam o palco por diversas dependências do Palácio da Praia Vermelha e do Paço Imperial, respectivamente. Cabaré Youkali e Café Havana exploravam as ambiguidades do estilo cabaré em espaços naturalmente mais confinados. Estação Terminal estimulava performances interativas com a plateia. Bósnia, Bósnia e Olga Benário – Um Breve Futuro expandiam sua ação através de recursos multimídia no rumo do teatro-documentário em parcerias com Silvio Tendler e o pesquisador de imagens Antonio Venâncio. Companheiros e Missa dos Quilombos investiam no musical de contornos sociais e fatura épica. A dar unidade a essas várias experiências estava sempre o compromisso com um senso de coletivo, não só dentro do grupo, mas também para fora dele.

A Ensaio Aberto leva a sério o seu título tentando atrair para o teatro parcelas da população que não têm o hábito de frequentá-lo. Para isso, sempre ofereceu espetáculos a preços populares ou gratuitos a populações de baixa renda, assim como articulou a formação de plateias cidadãs em comunidades, colégios (preferencialmente públicos), sindicatos, associações de moradores e movimentos sociais organizados. Levou a suas peças grupos de presos em regime semi-aberto, crianças em situação de risco, mendigos e doentes mentais. A proposta é “refuncionalizar o teatro”, tornando-o mais includente e mobilizador.

Aos 20 anos, com esse livro, a Ensaio Aberto dá mais um passo no sentido de superar a natural efemeridade do teatro. Uma próxima etapa desejável seria o lançamento de uma caixa de DVDs com os registros de alguns espetáculos. Não custa nada sonhar.

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