Os eus e os outros

Juliano Gomes publicou no velho DocBlog esta resenha de Fotografias, de Andres Di Tella, quando de sua exibição no É Tudo Verdade de 2007

O doc íntimo, em primeira pessoa, é uma das formas mais em voga da produção das últimas décadas. O vídeo deu o empurrão definitivo para a proliferação dessa forma. Andrés Di Tella é um dos que a adotam com freqüência em sua obra. Em Fotografias, ele tenta investigar a si mesmo através da busca de suas raízes familiares, principalmente em direção a sua mãe indiana, já falecida. A relação maior aqui, para constituir uma identidade através do cinema, é ligar o seu papel de filho com o seu papel de pai – do carismático Rocco.

Andrés parte para a aventura a partir de sua própria casa. Busca, acompanhado do filho, fotografias de si e da mãe, vestígios dela, como cartas e objetos, num porão escuro. Com ajuda das fotografias, das imagens em vídeo e película feitas por sua mãe sobre a família e sobre sua terra natal, a Índia, ele parte na missão de se compreender melhor através da investigação sobre as lacunas mais obscuras de sua história familiar. Para isso, além do material de arquivo temos um registro do presente através do vídeo, e uma espécie de presente maior – que organiza todo o filme – dado pela narração em off feita pelo próprio diretor.

Na opção pelo filme-ensaio em primeira pessoa, o trabalho se perde um pouco. Talvez por querer contar muita coisa no mesmo filme: sua história íntima, a história de sua mãe, de seu pai, da família ainda integrada, da família na Índia, da cultura hindu, da sua paternidade, da sua relação consigo mesmo, dos indianos na Argentina, do racismo e do escritor Ricardo Guiraldes. A opção por relacionar sempre o geral e o particular termina por enfraquecer os dois. Mas há boas sacadas como quando diz que “isso eu não filmei”, relação endossada pela edição que insere telas pretas entre os blocos. E também no emocinante plano de sua mãe, ao vento de um carro em movimento – que condensa vários eixos do filme. Nessa imagem, Di Tella perde a chance de terminar com precisão, e se estende por mais uns bons minutos, fazendo uma série de falsos finais nas suas quase duas horas de duração.

A construção de si – e do outro – arquitetada por Di Tella emociona pouco. Enquanto que a relação entre os níveis da narrativa raramente se faz complexa. Fotografias nos pega mais por conta do carisma de Rocco e da montagem do material de arquivo. Às vezes carrega a mão no melodrama. Apesar da moda, é necessária uma precisão singular para tecer narrativas sobre si – como é o caso de SantiagoAlguma Tristeza eTarachime, já exibidos no ETV 2007 – e isso faz falta em Fotografias.

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