Pílulas na rede 7

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Não creio que seja por falta de referências da cultura judaica que eu deixei de curtir O GATO DO RABINO. A gente sente quando a coisa tem verve, gume e graça – e esse não me pareceu bem o caso. O filme é hiperfrancês na verborragia e na exposição de uma erudição mais pomposa que comunicativa. As vozes me soaram aborrecidas, especialmente a do gato. Por longas sequências o gato falante simplesmente desaparece de cena, deixando-nos entregues a falastrões cansativos.  O desenho de Joann Sfar é vistoso (não sei como será a cópia em 3D), mas acaba subjugado à falação ininterrupta e à indecisão entre ser uma comédia “muito inteligente” ou uma peroração sobre tolerância religiosa.

O Leão de O MÁGICO DE OZ, no Teatro João Caetano, me fez rir de um tipo de personagem de que eu achava que não riria mais: o gay. É muito boa a leitura do leão medroso que desmunheca. No papel, Lucio Mauro Filho ganha a plateia de qualquer idade. O musical é muito competente e tem um Mièle meio morno, mas bem-vindo como fato da cena teatral. A cena Busby Berkeley das papoulas é ótima e o cachorrinho vivo em cena acrescenta um suspense interessante. Na seara Moeller-Botelho, tá tudo praticamente dominado.

A VIDA DE OUTRA MULHER é uma comprovação de que nenhum grande ator é capaz de salvar um filme sozinho. Juliette Binoche é simplesmente engolida pela mediocridade do roteiro e da direção. Faz caretas demais, não consegue injetar humanidade na personagem por absoluta falta de material dramatúrgico. Um episódio de amnésia é tratado ora como comédia patética, ora como drama desfocado, sem jamais tocar sequer no cerne da questão. Quiseram comer a fruta sem tocar na fruta.

Não é que eu esteja sem nada pra fazer, muito pelo contrário. Mas fui ver UM DIVÃ PARA DOIS (não resisto a um filme com Meryl Streep). Podia se chamar “Um Roteiro para Dois”. Imagino o que seria daquele manual de salvação de casamento ilustrado se não fossem Meryl e Tommy Lee Jones. Mesmo quando as cenas não são lá muito inspiradas, as microrreações de cada um fazem a delícia de quem curte detalhes. É um cabedal de observação humana que dá gosto ver.

O DITADOR é aquele tipo de filme em que você ri e ao mesmo tempo se pergunta: “porra, de que estou rindo?”. A balança de piadas pende um pouco mais para o sem graça, mas algumas são irresistíveis. Sacha Baron Cohen ficou mais formatado e continua limitado em termos de trama, mas ainda é grande sua capacidade de brincar com os estereótipos da cena mundial e jogar alguns mísseis pontiagudos no status quo contemporâneo.

Estamos vivendo mesmo uma fase de muito baixa exigência. Um filme como À BEIRA DO CAMINHO não podia estar recebendo tanta condescendência por parte de alguns críticos. Não bastasse buscar o sentimentalismo mais banal, usar os clichês mais previsíveis, procurar a adesão do espectador pelos caminhos mais preformatados, o pior é não conseguir nada disso. É patinar em diálogos medíocres como o menino perguntando ao caminhoneiro: “João, se você encontrasse um filho por aí, o que você faria?” (assim mesmo, no futuro do prétérito). É citar as canções de Roberto Carlos sem nenhum sentido especial. É ser incapaz de criar uma única cena original (exceto talvez pela do revólver) ou um momento sequer que fique na memória afetiva de quem vê. É botar aquela lágrima de formulário no rosto de João Miguel na hora em que o menino cobre o retrato do suposto pai com o dele. Faltou um parachoque dizendo: “Quando não se tem nada para dizer, melhor é ficar calado”.

No mesmo ano de 2009 em que Eduardo Coutinho filmava MOSCOU, a diretora de teatro Celina Sodré fazia seu TRANSTCHEKOV, uma experiência de interpenetração entre trechos de três peças de Tchecov e as histórias pessoais de um elenco formado por homossexuais, transexuais, travestis e heterossexuais. Não vi o espetáculo, mas sim um vídeo derivado dele, que Celina me enviou. Em certos momentos da encenação, os atores abrem espaços para contar suas experiências com o gênero e a sexualidade. A bela Clara Choveaux conta o entrecho do filme TIRESIA, de Betrand Bonnello, que protagonizou, como sendo sua história pessoal, lançando assim mais uma camada nessa transficção. No epílogo, Celina diz que quis abrir o corpo de Tchecov e fazer uma cirurgia. A Lapa virou Jardim das Cerejeiras.

Nem a vontade de conferir a atuação do Rodrigo Santoro fez com que eu suportasse mais de 30 minutos de O QUE FAZER ENQUANTO VOCÊ ESTÁ ESPERANDO. Depois de aturar personagens de papelão falando como numa sitcom sem sal, e depois da segunda “piada” com vômito de grávida, resolvi retirar meu bonequinho e aproveitar melhor o tempo que ainda faltava. Mas deu pra ver que Rodrigo está mandando bem no inglês.

2 comentários sobre “Pílulas na rede 7

  1. Lucidez à toda prova, a vossa, Carlos Alberto.
    Desta vez, nenhuma “briga” entre as nossas respectivas opiniões de crítico e de leitor.
    Parabéns por ver as coisas — e os filmes — como elas são (e eles, os filmes, na maioria ESTÃO)….

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