Cisne

Festival do Rio

Canto triste

Duas músicas de Chico Buarque cantadas em palco e uma de Caymmi ouvida incidentalmente são talvez as coisas mais palatáveis de Cisne, novo filme da portuguesa Teresa Villaverde. As ações se dividem em blocos não lineares, que se unem um tanto forçadamente no cenário de uma Lisboa oblíqua: uma cantora solitária e o fã que ela escolhe para acompanhá-la após cada show com base num questionário; o fã da hora, que hesita em fazer um primeiro contato com a própria mãe; o namorado da cantora, que se imola à distância na casa dela vazia ou troca ideias com uma anã; um grupo de garotos envolvidos com violência.

Teresa faz um tipo de cinema português que não facilita as coisas para o espectador. Seus filmes são depressivos e enigmáticos na maior parte do tempo. Seus personagens chegam até nós com suas crises já prontas e internalizadas, sem que tenhamos acesso às origens e motivações. À exceção de Mutantes, sua obra-prima de 1998, nunca cheguei a roçar a alma de suas criaturas curvadas sob o peso do mundo. Quando se expressam, elas usam falas literárias, vozes lacônicas e, aqui e ali, momentos de exacerbação física mais simbólica que qualquer outra coisa. Vera, a protagonista de Cisne, por exemplo, sangra nos olhos quando está contente.

Admiro o estilo seco e grave de Teresa, mas suas histórias me parecem suas demais, frágeis demais, para transpor o espaço desmedido entre a tela e a plateia.

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