DOLORES
Andar de moto sem capacete é somente um dos perigos a que as mulheres de Dolores se expõem. A personagem-título (Carla Ribas) tem um antigo vício de jogo e vende a casa onde mora para abrir um cassino. Sua filha, Deborah (Naruna Costa), aguarda ansiosamente o namorado sair da cadeia e terá uma surpresa muito desagradável. Por sua vez, Duda (Ariane Aparecida), filha de Deborah, mantém uma relação perigosa com uma escola de tiro.
De alguma forma, essas três gerações de mulheres, mais a amiga Marlene (Gilda Nomacce) vivenciam temas candentes da atualidade brasileira: o vício das bets, o apelo armamentista da extrema-direita e a relação amorosa entre pessoas de dentro e de fora da cadeia – tema este muito bem abordado no documentário Cativas, de Joana Nin.
Por razões diferentes entre si, as 3D (Dolores, Deborah e Duda) sonham em mudar de vida, refazer a vida. Isso inclui um desejo de evasão para fora das fronteiras do país. Para Dolores, através do sonho. Para Deborah, através do trabalho. Para Duda, através da contravenção.
Armado esse arcabouço, Dolores caminha aos solavancos, com uma narrativa truncada que não convence em vários momentos, nem chega a produzir empatia pelos personagens. O argumento original deixado pelo cineasta Chico Teixeira (1958-2019) e Sabina Anzuategui foi retrabalhado por Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar, que dirigiram o filme. Ao fim e ao cabo, fica a impressão de um certo populismo cinematográfico na caracterização da classe média baixa com os clichês correspondentes: a venda de lingerie, o sonho da laje, a idealização do Paraguai, as relações lésbicas de praxe…
Vale destacar alguns fatores de adesão ao filme. As atrizes dão conta muito bem de seus papéis, apesar dos diálogos em geral apenas funcionais. A fotografia de Joana Luz tem uma sofisticação que se presta muito bem, sobretudo, à suspensão ilusória da realidade na mente de Dolores. O ato final, completamente fantasiado, mais parece uma conciliação com o feel good movie do que um desenlace daqueles destinos dignos do mambo que embala os créditos.
>> Dolores está nos cinemas.




