Ela, elas, Elena

A julgar pelo que se vê e ouve na tela, as pulsões da arte e da morte parecem se digladiar na família de Petra Costa. Elena, o filme, é a mise-en-scène dessa luta. Uma artista sensível mune-se de todas as armas a seu alcance para exorcizar uma dor, uma lacuna que, paradoxalmente, a preenche e constitui.

Num dado momento do documentário, quase num sussurro, Petra se pergunta qual é o seu papel nesse filme. Ela é a autora, claro, mas é também uma personagem e principalmente uma atriz. Vozes familiares contam que desde cedo ela se parecia com Elena, a irmã mais velha que se suicidou muito jovem em Nova York quando ela, Petra, tinha sete anos. Alguns até a chamavam de Elena, sem querer. Petra também passou por fases de depressão, pensou em morrer – como a mãe delas algum dia – e também seguiu a carreira de atriz que Elena não logrou consolidar. Petra tem consciência do laço atávico que une essas três mulheres belas e tristes. Por isso não hesita em deixar-se confundir com a irmã. Em boa parte do filme, ela é uma atriz numa espécie de papel duplo: dela mesma e de Elena.

A fronteira entre o documentário e a performance é portanto bastante líquida em Elena. É nessa passagem que Petra Costa realiza seu intento: não exatamente dissolver a morte, essa presença sempre tão iminente na vida de sua família, seja na militância política dos pais durante a ditadura, seja mesmo nas danças em que Elena parece se enforcar. Mas sim transformar as perdas, com seu cortejo de medos e culpas, em coisa mais transcendente e afirmativa como a arte. Petra e a mãe evoluem do relato para a encenação com bastante sutileza, falando de Elena e colocando-se logo em seguida no lugar dela. É com uma ternura infinita e numa estrutura espiral que Petra e Elena se contemplam, se misturam e se confundem nas duas dimensões do tempo. O filme é tanto sobre a lembrança quanto sobre a necessidade de esquecer – e isso é o mais duro para qualquer perda.

Petra arrasta alguns mitos para lhe ajudarem a dar conta de tão pesada tarefa: Ofélia, a angelical personagem de Shakespeare que se afoga entre flores num rio; a Pequena Sereia, que deseja passar para o mundo dos humanos. Poderia ter agregado as apsaras, ninfas dançarinas indianas ligadas à água. Não há no filme nem a objetividade dos relatos documentais nem a subjetividade puramente confessional dos filmes em primeira pessoa. Elena busca uma terceira via, que é a transformação do fato em memória e desta em reinvenção formal.           

O modelo do filme-carta geralmente se presta a derramamentos de emoção, o que Petra Costa evita pela adoção de um permanente tom menor e uma grande delicadeza na inserção de filmes domésticos, correspondência e depoimentos. Em compensação, abusa um pouco dos efeitos óticos e da narração em off. Essa minha percepção vai variar muito de acordo com o senso de medida de cada espectador. Afinal, o projeto é de tal forma pessoal que só a nível pessoal pode dialogar com o público. Elena corre o risco de parecer bonito demais, ainda que essa beleza seja a própria matéria de que é feito o seu dolorido encantamento.        

Um comentário sobre “Ela, elas, Elena

  1. Com todo respeito à dor pela perda trágica sofrida pela irmã (e diretora do filme) e pela mãe de Elena, o que bate na tela é a viagem em torno do umbigo da dor das duas, mas sem conseguir transpor a experiência íntima e subjetiva da dor individual para algo mais coletivo e menos subjetivo.
    A aspiração de retratar a realidade da dor e da perda com excesso de fotos, filmes e documentos familiares ao lado de imagens de pretensão poética raramente atingida acabou se transformando, ao meu ver, através dessa catarse protraída em mais um caso de “evasão da privacidade” de interesse bem relativo para as plateias em geral.
    E, embora também seja atriz, a narração de Petra Costa mostra que seria melhor usar outra narradora, com melhor fluência e ritmo menos escandido na fala: demosntrando que encenações e ficções podem transmitir com mais autenticidade a realidade vivida do que a busca mais documental de um realismo tal e qual, “em um por um”.

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