A bordo dos favela-tours

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Nas portas dos hotéis, os grupos se organizam em vans ou jipes. Pelos celulares, os guias checam condições de segurança e trânsito. Os olhares dos turistas estrangeiros variam entre a excitação e o receio. Está começando mais uma jornada de favela tour, atração típica do Rio de Janeiro – e também da Cidade do Cabo, entre outras pelo mundo afora. O documentário Em Busca de um Lugar Comum, de Felippe Schultz Mussel, acompanha alguns desses passeios às comunidades da Rocinha, Vila Canoas e às proximidades do Catumbi, no ano de 2011. O efeito é ao mesmo tempo dramático, cômico e crítico.

Trata-se de um negócio que opera nas franjas do risco e do constrangimento. A retórica dos guias é um primor de ambiguidade, haja vista que eles precisam “vender” uma impressão de aventura e ao mesmo tempo passar a sensação de segurança. É preciso fugir ao clichê (o lugar comum), apresentando a favela como um lugar comum (como outro qualquer), mas empregando os clichês de sempre. Existe um discurso anti-exotismo e anti-preconceito, porém restrito aos limites de uma bolha, a bolha do grupo protegido sob recomendações estritas.

Embora mantendo uma postura de mera observação dos percursos, explicações turísticas e conversas entre visitantes, o filme pressupõe um contato mais direto ao incorporar fotos e vídeos dos próprios turistas, um pouco à moda de Pacific. Temos, então, um pequeno estudo da ideologia do turismo, que pretende dar a conhecer os lugares pelos seus pontos de maior visibilidade e tradição. Numa determinada sequência, várias fotos de gringos posando contra a paisagem carioca, tiradas de uma mesma lage, se sobrepõem para evidenciar mais uma acepção do tal lugar comum.

Além disso, Felippe registra a visita de prospecção de uma certa empresa a Cidade de Deus, com vistas a identificar “atrativos” e rotas de passeio. Vemos então como se fabricam e se perpetuam certos chavões sobre a cidade e como se instrumentaliza o cenário para a indústria do turismo. A argumentação humanista-social é ferramenta de ponta na concepção dos negócios em tempos de polícia pacificadora e aposta nas boas intenções.

Nesse filme penetrante e desconcertante há muitos detalhes para se prestar atenção: o rapaz que tira a camisa para se fazer fotografar em clima de favela, o senhor israelense com a camisa 10 da seleção canarinho, as saias justas entre turistas e comerciantes, a argumentação do guia consciente quanto às limitações do desenvolvimento brasileiro enquanto as mocinhas se divertem tirando fotos. Enfim, está ali toda uma dramaturgia da exploração turística, junto com uma suspeita quanto ao futuro da cidade depois que passarem a Copa e as Olimpíadas. Mas, afinal, isso é outro lugar comum.

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