ÉTV : Chicago Boys

Filmar o inimigo e fazê-lo expor suas razões é sempre o mais desafiante para o documentarista. O casal Carola Fuentes (chilena) e Rafael Valdeavellano (guatemalteco) dá uma aula magna sobre isso em Chicago Boys. Era 2011 e o Chile assistia a uma onda de protestos contra o neoliberalismo ainda imperante na economia do pais. Foi quando eles tiveram a brilhante ideia de procurar os mentores daquele modelo econômico, instalado durante a ditadura de Pinochet, para ouvir um balanço de seus feitos e como viam as manifestações de descontentamento da população.

A história é contada desde o início, na década de 1960, quando um grupo de alunos promissores da universidade católica de Santiago foram levados para fazer pós-graduação em Chicago, numa das muitas ações do governo americano para afastar o “perigo comunista” da América Latina. O professor americano Arnold Harberger era o arregimentador e o monetarista Milton Friedman, o grande guru. De volta ao Chile, aguardaram a queda de Allende (“aquele era um país de merda”) para oferecer a Pinochet a receita de salvação neoliberal. Dois deles, pelo menos, chegaram ao cargo de Ministro da Fazenda.

São eles próprios quem narram os fatos, deixando transparecer a retórica do cinismo (“essa história de desigualdade é pura inveja dos que têm menos em relação aos que têm mais”; “o que é de todos não é de ninguém”) e sem esconder a cumplicidade com os horrores do regime militar (“cuidávamos só da economia, não sabíamos do resto”). Franquearam aos diretores não apenas seus pontos de vista da liberdade de mercado a qualquer preço, como também arquivos privados dos tempos de Chicago e a filmagem de uma reunião da “máfia” (como eles gostam de se chamar) para avaliar seu próprio trabalho junto aos militares de “Pinocchio”.

Carola e Rafael não se limitam a ouvi-los e interrogá-los vivamente, mas também reúnem um material primoroso do período e o tratam com notável inteligência. Exemplo disso é uma sequência que alterna a reunião de auto-avaliação dos antigos Boys com um discurso de Pinochet, deixando claro a instrumentalização recíproca de parte a parte; ou a demonstração fotográfica de como os sucessivos ministros da economia chilena, mesmo depois da redemocratização, continuaram a cortejar Harberger e, por extensão, o modelo de estado mínimo e lucro máximo. Daí as passeatas que vigoram ainda hoje no país. A conclusão, unânime entre eles, de que só um governo autoritário poderia ter implantado aquele modelo econômico, resta portanto comprometida, já que a democracia política não trouxe a democracia econômica.

Dois remanescentes do grupo inicial, Ricardo Ffrench-Davis e Carlos Massad, emitem vozes dissonantes, já que se tornaram críticos do “extremismo neoliberal” dos antigos colegas. Suas intervenções, porém, são bem esporádicas, uma vez que o discurso dos Boys de direita já contém a sua própria desconstrução.

Os trechos do filme que contam a preparação do golpe contra Allende mostram uma semelhança inquietante com tudo o que acontece hoje no Brasil: um grande jornal, El Mercurio, financeiramente municiado pela CIA, fomentando a insatisfação da população; os grupos da direita civil tramando nos bastidores; a classe média fazendo panelaços nas ruas. Daí a importância que Chicago Boys assume não só em relação ao Chile, mas como peça de interesse histórico para toda a América Latina. Tudo isso na forma de um filme admirável e assustador.

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