O jato frouxo de Cláudio Assis

Vou na contracorrente do jato de elogios da crítica a BIG JATO. Para mim, esse é o filme mais fraco de Cláudio Assis, embora “Baixio das Bestas”, que não trata de merda, seja o mais repulsivo. Não conheço o livro autobiográfico de Xico Sá que deu origem ao roteiro, mas o que encontrei na tela foi um festival de frases prontas encobrindo uma dicotomia bastante déja vu. O menino Xico é um personagem cuja formação é disputada por dois polos: de um lado, o pai desentupidor de fossas, homem aferrado ao trabalho duro, ao cálculo, ao machismo e ao lugar onde vive (um fóssil); de outro, o tio radialista, um tipo anarquista, amante da poesia e dos voos da imaginação. Resumindo: a Matemática e a Poesia, as convenções e a transgressão, Apolo e Dioniso.

Numa fala no Festival de Brasília, onde o filme ganhou quatro prêmios do júri oficial, Matheus Nachtergaele – que vive os dois irmãos antípodas – sugeriu tratar-se de duas faces de um mesmo personagem, ou das pulsões que convivem em qualquer ser humano. Como os dois nunca se encontram, podemos ver por aí. Ainda assim, e apesar de todo o fraseado verbal e camerístico, a dualidade é muito esquemática para trazer algo de novo. Xico persegue o primeiro amor e as primeiras curiosidades filosóficas, discutidas com um louco de aldeia (Jards Macalé), sem que nada disso repercuta para além da superfície das imagens e dos diálogos. A sensação de vazio e de reiteração é inevitável. A ferramenta de Cláudio Assis para extrair poesia do abjeto, desta vez, emperrou.

Ademais, a direção de Assis tem nesse filme seus momentos menos felizes. Se escancara o espaço para os solos fenomenais de Nachtergaele (a grande razão de ser do filme), obtém do menino Rafael Nicácio uma atuação inexpressiva e deixa outros coadjuvantes incorrerem em divisões erradas na fala e ações encenadas de maneira canhestra. A sequência da surra de Xico é particularmente vexaminosa pela combinação de exageros e insuficiências. Apesar de alguns bons lances de humor e da nobre intenção de expandir ideias sobre o choque de sentimentos do sertão, a meu ver BIG JATO fica a zilhômetros de distância do Assis pleno e delirante de “Amarelo Manga” e “A Febre do Rato”.

2 comentários sobre “O jato frouxo de Cláudio Assis

  1. Olá Carlos! Primeiramente FORA TEMER! Vi Big Jato e sai do filme com impressões que vão ao encontro de sua crítica, sempre cuidadosa e “cirúrgica”. Sou fã suspeito para falar sobre Matheus Nachtergaele…..

    Forte abraço!

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