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dibMorreu ontem, aos 80 anos, um pouco da alma do cinema brasileiro moderno. “Foi nos ombros e na cabeça de Dib Lutfi que se apoiou o cinema brasileiro para realizar uma revolução estética, que sem ele não teria sido possível”, disse Luiz Carlos Barreto certa vez.

Sem dúvida, a câmera de Dib revolucionou o cinema brasileiro. Na década de 1960, ele começou sua carreira como cameraman e diretor de fotografia, e logo se transformou no preferido dos diretores atuantes no Cinema Novo. Passou a ser unânime a escolha de Dib para compor a ficha técnica dos filmes produzidos. Isso porque seus movimentos de câmera foram nucleares em uma revolução estética que ali começava.

Dib filmava como quem está invisível diante das personagens, em constante movimento e interação. Tal fato hoje parece corriqueiro, mas nos anos 60 a câmera era tratada pela grande maioria dos cineastas como um observador distante e estático. Com ele, a câmera virou um olho móvel, flutuante, atento ao acaso, que mergulha nas cenas, cerca as personagens e sublinha suas emoções.

Quando Glauber Rocha brandia o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, famoso aforismo que define a expressão estética do Cinema Novo, certamente se referia às mãos de Dib Lutfi. Sua câmera, portanto, praticamente compunha a direção de arte junto à ideia que deveria ser transmitida pelo filme.

Dib trabalhou com os cineastas Ruy Guerra, Eduardo Coutinho, Nelson Pereira dos Santos, Walter Lima Jr., Cacá Diegues, Glauber Rocha, Domingos Oliveira, Arnaldo Jabor, Lauro Escorel e Zelito Viana, entre outros. A lista de longas-metragens com a participação artística de Dib é extensíssima e nela constam pérolas como Terra em Transe (1967), A Falecida (1965), Ópera do Malandro (1986), Como Era Gostoso o meu Francês (1971), A Lira do Delírio (1978), Joana Francesa (1975) e Pra frente, Brasil! (1982). Seu último trabalho como diretor de fotografia foi no documentário Reidy, a Construção da Utopia, de Ana Maria Magalhães.

A paixão de Dib pelo cinema era contagiante. Ele sempre encontrava uma solução para cada cena-desafio imaginada pelos roteiristas e diretores. Se quisessem que a câmera andasse sobre o muro, ele andava; se quisessem que a imagem saltasse pela janela, ele saltava; se não tivessem grua, mas quisessem uma cena de grua, ele construía uma, e assim por diante. Para Dib, não havia dificuldades invencíveis.

Para além da genialidade do fotógrafo, seu carisma era enorme. Muitos amigos com quem trabalhou contam momentos inesquecíveis que viveram com ele e molecagens hilárias que sempre aprontava nos sets de filmagem. Histórias que se tornaram populares no mundo do cinema.

Há pelo menos seis anos Dib vivia em casas de repouso, vitimado pela doença de Alzheimer. O texto acima provém em parte do projeto de um livro, um site e uma mostra de filmes com foco em sua carreira que, junto com familiares dele, tentei em vão emplacar. É uma dívida que o cinema brasileiro tem para com ele.