Torquato e Santoro

Sobre os documentários TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM e CLAUDIO SANTORO – O HOMEM E SUA MÚSICA

Um poeta cercado de morte

É comum que documentários sobre gente que morreu jovem comecem pela morte para depois retornar ao início da biografia. Mas no caso de TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM, esse procedimento é mais que um chavão narrativo. Já a partir do título, o filme de Eduardo Ades e Marcus Fernando indica uma pulsão trágica na vida do poeta. Por mais que Torquato tenha procurado a vida, saindo do Piauí para a Nouvelle Vague tropicalista no Rio e depois o exílio em Londres, esse desejo de evasão se confundia com outro mais radical: o de sair da vida.

Vampiro de si mesmo, como diz a certa altura Haroldo de Campos, o Nosferatu brasileiro deixou poucos registros de sua breve passagem pela terra além das letras e poemas. Deixou um filme em Super 8, O Terror da Vermelha (disponível no Youtube e no qual ele morria vítima de um serial killer), e sua imagem errante de não vivente em Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso. Mas é pouco em matéria de movimento e som. Não fosse o áudio de uma entrevista gravada pelo radialista gaúcho Vanderlei Cunha, teríamos dificuldade em saber como era sua voz.

O documentário contorna essa escassez com a voz de Jesuíta Barbosa dizendo seus poemas e cartas, além de uma fértil pesquisa de filmes dos anos 1960 e 1970 (muitos marginais ou ultra-marginais). Somos, assim, engolfados pela afetividade dos arquivos e suas texturas marcadas pelo tempo. Não há imagens atuais – ou se as há, estão trabalhadas para parecerem antigas –, embora alguns depoimentos recentes nos cheguem em off.

Imagino que os diretores optaram por uma estética que se afinasse, pelo menos superficialmente, com o ar da época de Torquato. O desejo de criar subtextos e discursos paralelos está evidente. Uma vibe tropicalista às vezes contagia a edição, outras vezes produz apenas uma geleia geral complicada de decifrar. O retorno de vozes não mais identificadas resulta numa certa confusão de enunciados. Ainda assim, nada disfarça a linearidade do relato biográfico em moldes mais tradicionais do que o vanguardismo do retratado poderia recomendar.

Ades e Fernando montaram um bonito e carinhoso mosaico de lembranças e ilustrações do talento múltiplo de Torquato, mas não creio que tenham penetrado no mistério que envolveu sua curta vida e sua morte precoce aos 28 anos. Discrição exagerada? Preferência por um perfil menos pessoal? Rejeição a uma abordagem interpretativa das relações entre obra e artista? Ou será que o poeta de “Pra Dizer Adeus”, ao referir-se a si mesmo de modo um tanto cifrado pela experimentação, passou de antemão uma rasteira em quem pretendesse retratá-lo por inteiro?



Santoro, músico múltiplo

Como o título bem objetivo sugere, em CLAUDIO SANTORO – O HOMEM E SUA MÚSICA não há qualquer pretensão além de estender um painel sobre a vida social de Claudio Santoro (1919-1989) e a abundante variedade de sua obra. O tom de tributo é inevitável, mas nunca perde de vista a sobriedade e a ancoragem firme na música. Em concertos com diversas orquestras e solistas, ouvimos/vemos exemplos das muitas vertentes da obra de Santoro: sinfônica, nacionalista, dodecafônica, experimental, música aleatória, trilha de cinema, canções românticas.

Felizmente, John Howard Szerman não insiste na tentação de ilustrar a música com imagens, procedimento que tem o risco da cafonice sempre à espreita. Mas faz um gol de placa ao animar as partituras das Interações Assintóticas (foto) e das Mutationen III. As imagens dos depoimentos padecem de uma certa “dureza”, sendo compensadas por uma montagem esperta que dá conta dos aspectos biográficos e musicográficos. Aluno de Hans-Joachim Koellreutter e Nadia Boulanger, Santoro teve uma vida difícil por ser de esquerda durante a ditadura, o que lhe privou de oportunidades e lhe custou muitos anos de exílio na Alemanha. Trabalhou como um operário da música e morreu no palco, durante um ensaio em Brasília, sua última morada.

Um filho pianista, outro DJ e uma filha pintora levam adiante a presença do pai dentro do filme, além da viúva Gisèle, que colaborou no roteiro. Filme de família, dirão, e não há como negar. Filme de músicos, sem dúvida, pois mestres como Edino Krieger, Julio Medaglia e Guilherme Vaz lá estão para reverenciar o colega. Filme de respeito, pois joga luzes sobre um artista que não merece a penumbra.

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