Monty Python no Kremlin

A MORTE DE STALIN é parte de um revisionismo cultural que fez do comunismo ultra-ortodoxo uma piada histórica. É o que se vê, por exemplo, nos “museus do comunismo” em países do Leste europeu, cuja museografia não disfarça um comentário satírico sobre o passado. Aqui, o último dia de Stalin e os primeiros dias da URSS sem ele ganham um olhar herdeiro do grupo humorístico inglês Monty Python (Michael Palin, por sinal, é um dos protagonistas). Com a morte vexatória do supremo “Homem de Aço”, depois de desmaiar numa poça de urina, seus ministros se digladiam em torno da sucessão e das mudanças que devem ou não impor ao país.

O diretor inglês Armando Ianucci, prolífico satirista político conhecido aqui pelo longa “Conversa Truncada”, não se afastou muito dos fatos verídicos, mas os mergulhou num coquetel de humor ácido, tipicamente britânico, para realçar a pusilanimidade da alta nomenklatura soviética de então. Enquanto Stalin agoniza, por exemplo, o alto escalão tem dificuldade em achar bons médicos porque todos estavam nos gulags ou haviam sido mortos. Além do mais, será que o comitê central teria mesmo interesse em salvar o líder máximo?

Michel Temer seria um ótimo personagem dessa comédia de traidores, puxa-sacos e inescrupulosos. A disputa pelo espólio político do morto se passa num covil de serpentes, enquanto lá fora os pogroms ainda torturavam, fuzilavam ou mandavam para a Sibéria os inimigos do regime. Nikita Khruschev (Steve Buscemi) fica encarregado de organizar os funerais e usa isso como trampolim para enfrentar o carniceiro Beria, executor do expurgo stalinista, e finalmente se consagrar Secretário Geral do PC.

Começava, então, a desestalinização da URSS. Mas não sem antes terem que lidar com os dois filhos de Stalin e a tentativa de golpe de estado do comandante do Exército Vermelho. Tudo isso chega à cena na forma de uma sátira mordaz, sagaz e veloz. Não há tempo para respirar entre as gags verbais e visuais. Os traços físicos dos ministros são caricaturados, a burocracia do “centralismo democrático” e a pompa stalinista são alvos de uma metralhadora cômica irresistível. A encenação é ágil e quase sempre brilhante. O elenco de craques se move numa cenografia grandiosa que, paradoxalmente, expõe o vazio da suntuosidade autoritária.

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