Uma fria guerra fria

GUERRA FRIA

Como aconteceu com Ida (leiam aqui minha resenha), o filme anterior de Pawel Pawlikowski, a forma chamou minha atenção para além da conta em GUERRA FRIA. O diretor polonês volta a filmar em preto e branco, com tela quadrada e colocando muitas vezes o objeto central das cenas no terço inferior do quadro. As imagens, extremamente bem compostas e iluminadas, sugerem a aparência de “filme de fotógrafo” – aqueles em que o cineasta parece mais interessado na beleza dos planos do que na eficácia da narrativa.

Mas, ao contrário de Ida, não existe a mesma coesão entre forma e conteúdo em GUERRA FRIA. Afora uma certa relação com o cinema noir (um homem, uma mulher e algum perigo), o virtuosismo estético de Pawlikowski parece bastante postiço e artificial. A narrativa é conduzida por elipses desconcertantes e cortes secos para a tela negra, o que frequentemente nos arranca para fora da história em lugar de nos convocar progressivamente.

A música tem papel importante, desde a cena de abertura, em que o maestro Wiktor (Tomasz Kot) aparece gravando performances populares e entrevistando cantoras para um espetáculo folclórico na Polônia do pós-II Guerra. A ajudante de Wiktor, figura aparentemente importante nas sequências iniciais, vai desaparecer do filme de maneira abrupta. Em seu lugar entra a bela Zula (Joanna Kulig, novo símbolo sexual do cinema polonês), promessa de cantora por quem Wiktor cai de amores.

O realismo socialista e o culto a Stálin começam a se impor na Polônia, fazendo com que o destino dos dois tome rumos diferentes. Mas o romance vai atravessar o período de 1949 a 1964 com muitas reviravoltas e dependência mútua, até um final despropositado.

A guerra fria reverbera na vida de Wiktor e Zula, estando eles juntos ou separados. Há projeto de fuga, envolvimento em espionagem, amores paralelos e um casamento simbólico numa igreja arruinada pela guerra. Tudo pontuado pelas canções da moça e o piano do moço. Do repertório folclórico polonês passa-se ao jazz e a canções sofisticadas numa Paris convenientemente idealizada. O clima noir às vezes cede lugar ao melodrama conjugal clássico, com risco de transformar o filme em uma versão europeia de Nasce uma Estrela.  

GUERRA FRIA me pareceu bonito de ver e gostoso de ouvir, mas frio de sentir. Wiktor e Zula são personagens unidimensionais, cujo estofo emocional nos é frequentemente negado. Talvez por isso, a química entre os amantes não chegue ao espectador. Junte-se a isso o aspecto fragmentado da narrativa e a encenação desdramatizada, embora elegante, e temos uma experiência de distanciamento em grande medida frustrante.

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