“Hello, sir!”

Inquietações de um foreigner no sul da Índia

Venho de passar 22 dias na Índia. Os primeiros oito dias como jurado da crítica no Mumbai International Film Festival, os demais como turista solitário por várias cidades do sul do país. A experiência de estrangeiro na Índia é sempre um mix de sensações muito diversas, às vezes opostas. Fascinação e constrangimento, identificação e repulsa se alternam e se confundem. E isso de ambas as partes, tanto entre os locais como entre os visitantes.

O sul é ainda mais particular na relação com os foreigners, uma vez que lá há muito menos turistas ocidentais que no Norte, a parte mais “épica” e pitoresca do país. O sul é mais resguardado, mais conservador e menos chamativo. À exceção do estado de Kerala – aliás, excepcional em muitas coisas –, no sul o visitante estrangeiro se vê na companhia principalmente de turistas internos, ou mesmo peregrinos no rumo de lugares sagrados.

Muitas das minhas observações aqui dizem respeito à Índia em geral, mas algumas podem se referir especificamente a particularidades do sul.

Not allowed

Em Bombaim, Cidade Máxima, o autor Suketu Mehta escreveu que a Índia é o país do não. Já em Suíte Elefanta, Paul Theroux afirma o contrário: é o país do sim. De alguma maneira, os dois têm razão. Mehta descreve o seu próprio país do ponto de vista de um indiano que viveu fora e voltou para vivenciá-lo de novo. Theroux de alguma forma projeta-se nos seus personagens, traduzindo a experiência do estrangeiro. Em uma palavra, a vida é dura para os indianos pobres, mas pode ser muito privilegiada para os foreigners com cor de pele diferente e moeda forte no bolso.

A expressão “not allowed” talvez seja a mais popular no caminho do turista na Índia. Não é permitido tirar fotos ou entrar de sapatos na maioria dos museus e em todos os templos; não se pode tomar bebidas alcoólicas na maioria dos restaurantes; as placas de proibição se multiplicam como moscas no mercado de peixe. Há um respeito religioso pelas regras formais, em contraste com a ausência total de regras, por exemplo, no trânsito e no corpo-a-corpo das cidades. Filas são para ser furadas, faixas de tráfico são para ser atravessadas, um corpo à sua frente é para ser suavemente empurrado para o lado por quem abre caminho. Mas se você tenta pedir autorização para o que seja, a resposta é invariavelmente “not allowed, sir”.

Notei uma tendência a elogiar os empreendimentos e companhias do governo como se fosse um padrão esperado de comportamento. No entanto, um pouquinho mais de conversa vai mostrar que o cidadão, no fundo, confia mais na eficiência das empresas privadas.

100 rúpias

Aos poucos, a gente vai descobrindo que há caminhos alternativos para aquilo que se quer fazer. E eles geralmente custam 100 rúpias (o correspondente a 4 reais). Um guarda de museu pode autorizar sua entrada com uma câmera no Palácio de Mysore por 50 ou 100 rúpias, muito embora se outro policial o flagrar utilizando-a, vai chamá-lo no canto para cobrar uma “multa”: provavelmente mais 100 rúpias, entregues sem nenhuma discrição. Ou seja, a pequena corrupção é tão clara e oficial como um ticket alternativo.

O turista estrangeiro é visto como potencial complementação de salário. Em Fort Cochin, simpaticíssimo recanto de Kerala com traços de colonização portuguesa e muitas igrejas católicas, os pescadores que utilizam as famosas redes chinesas tiram seu sustento mais da “pesca” de turistas que de peixes. Seja no início da manhã, quando manejam os contrapesos para mergulhar e recolher as imensas redes, seja no por do sol, quando o melhor ângulo fotográfico é no pier de madeira daquelas traquitanas, eles tentam atrair os turistas para o perímetro de seus domínios privados: “Hello, sir, come, come!” À saída, o papo é sempre o mesmo: “Você sabe, a pesca hoje foi ruim, a família está em casa esperando que eu leve alguma coisa…” Resumo: 100 rúpias.

Até em alguns templos prevalece esse “jeitinho indiano”. Em Kanyakumari, extremo sul da Índia, onde hordas de hindus acorrem para venerar a deusa Kanya Devi no local onde três mares se encontram, o foreigner é rapidamente abordado à entrada do templo por um “sacerdote” que oferece, por 100 rúpias, a oportunidade de furar a longuíssima fila de fiéis. Em vez de aguardar por até duas horas, você pode usar a “special entrance” e ir direto ao coração do templo, onde brilha o anel dourado no nariz da deusa.

Cem rúpias é quanto custa em média o ingresso de estrangeiros em monumentos que dos indianos cobram apenas 5 rúpias.  Muito natural e louvável, não fossem as diferenças de tratamento que isso acarreta. Quando entrei num pequeno museu histórico de Madurai, notei que o coletor de tickets apontou para mim e fez um gesto imperioso na direção de outro empregado, que correu a acender mais luzes e ligar os ventiladores de teto. Aparentemente, os pobres locais de 5 rúpias que lá se encontravam não faziam jus a tais confortos.

Cada um no seu lugar

Ganesha, motorista

Um misto de dogma religioso hinduista, conservadorismo político e talvez um pouco de herança colonialista cria um determinismo social característico. Para o indiano comum, os homens nasceram para ser diferentes, e pronto. As coisas podem ser melhoradas numa futura encarnação, mas na atual cada um deve aceitar o seu lugar, o seu dharma. Isso se reflete numa segmentação social estrita e cruel. Certo dia, num restaurante de classe média, vi uma criança deixar cair no chão um guardanapo de tecido. A menina olhou rapidamente e voltou a comer. O pai olhou e não se moveu. O maitre e os garçons passavam e se desviavam do guardanapo. O pedaço de pano ficou um longo tempo no chão à espera de um auxiliar, possivelmente de casta inferior, que o recolhesse. Funções de limpeza não se confudem com atribuições mais “nobres” de serviço.

Da mesma forma, um motorista, por exemplo, não deve dividir a mesa de refeição com as pessoas a quem está servindo. Contra essa lei eu me rebelei desde cedo. Viajando sozinho, tive três motoristas me conduzindo em diferentes partes da viagem. Era uma convivência de vários dias que não podia ficar refém de normas tão segregadoras. Com todos insisti para que fizessem algumas refeições comigo, como meus convidados. Devo dizer que não relutaram muito em aceitar. E se sentiam melhor ainda quando eu os “autorizava” a comer com a mão, como fazem 90% dos indianos de todas as classes, mesmo nos melhores endereços gastronômicos do sul.

Nos primeiros contatos, a coisa parece resquício da era dos marajás. A função de um desses motoristas compreende desde abrir a porta do carro para você até limpar sua roupa caso você se encoste num muro sujo. Mas, curiosamente, não inclui retirar sua bagagem do carro na entrada do hotel. Ele abre o porta-malas e fica esperando aparecer o bellboy para cumprir o seu dharma.

Olhos e óculos

No sul como no norte, a presença do foreigner entre populares é motivo de curiosidade, atração e desconfiança. Sem qualquer dissimulação. Um rapaz pode simplesmente parar diante de você na rua e ficar lhe olhando sem nenhuma expressão predominante, como se estivesse examinando uma peça rara num museu. De repente, os papéis parecem se inverter: você é o visitado e ele o visitante. Mas há também muitos sorrisos, muitas cabecinhas balançando para os lados de satisfação com uma troca de olhares, muitas crianças pedindo para ser fotografadas ou filmadas – e agradecendo, felizes da vida por terem sua imagem levada para não sabem onde – e também adultos mandando a gente fotografar o amigo ao lado. Nunca entendi essa forma de gozação entre eles.

Em mais de uma ocasião pessoas apontaram para os meus olhos. Na verdade, estavam curtindo os meus óculos (adoro o uso que eles fazem do termo “spectacles” em vez de “glasses”). Poucos indianos usam óculos. Nos velhos filmes que conheço, os óculos eram sempre distintivos de certo poder aquisitivo combinado com prestígio intelectual. Eram geralmente acessório de professores, escritores e filósofos. Lembro que em A Grande Cidade, de Satyajit Ray, uma família de classe média de Calcutá vive atribulações na tentativa de prover um par de óculos para as leituras do avô. Pelo jeito, este ainda é um objeto de consumo pouco acessível à massa indiana.

Encantos de Kerala

Não cabe aqui listar as melhores coisas que passaram pelos meus óculos nem os melhores sabores e odores que senti nessa viagem. Foram muitos. Meus álbuns de fotos no Picasa (Mumbai, Sul da Índia – Lugares, Cenas e Gente) podem dar uma pequena ideia. Mas cabe mencionar a grande exceção do meu passeio pelo sul. Apesar de tão tradicional e estrito quanto Maharastra, Karnataka e Tamil Nadu, o estado de Kerala tem particularidades que me encantaram. Lá a natureza tropical é farta em coqueiros, bananeiras, canais tranquilos que lembram braços de rios da Amazônia, praias e recantos que convidam a relaxar. Trivandrum, a capital, e Fort Cochin, um oásis de tranquilidade ao lado da industrial e feia Cochin, são dos poucos lugares da Índia onde eu toparia viver. E curtir muito teatro Kathakali, um parente da ópera chinesa. Em matéria de cultura e arquitetura, Kerala é um caldeirão de influências de China, Portugal, Holanda e Inglaterra. Tem mais igrejas católicas que em Goa, o que relativiza um pouco o fanatismo hinduista de outros locais. Este, por sinal, é o único estado sem maioria absoluta de hinduistas.

Mas Kerala me agradou sobretudo por seu diferencial social. Mesmo ocupando uma faixa territorial estreita, a concentração demográfica ali é menor. Menos multidões, menos estresse, menos olhares escaneando os foreigners. Mais cortesia, mais sorrisos, um jeito meio baiano de ser. A ênfase de sucessivos governos na educação gerou o maior índice de alfabetização do país e um preparo e eficiência que talvez só se comparem às médias de Bombaim e Bangalore. Nos dias em que estive lá, cartazes e bandeiras do Partido Comunista da Índia coalhavam as ruas de várias cidades anunciando seu congresso anual. Os comunistas já estiveram no poder em Kerala e continuam por perto. Os sindicatos são fortes e várias medidas de equalização social fazem hoje o estado com menos desigualdade em todo o país. A gente sente isso quando vê menos sinais de miséria, uma maior convivência entre as classes e menos convites à corrupção. Não chega a ser o paraíso, mas é o que mais se aproxima do que a Índia um dia poderá ser.

6 comentários sobre ““Hello, sir!”

  1. Adorei ver seus comentários e observações por esse país que me deixou bem perplexa. Segui suas descrições e sentimentos relembrando os meus 10 dias em Déli, quando a Mostra do Filme Etnográfico foi homenageada no festival local. Os sentimentos são mesmo contraditórios naquele mundo tão instigante. O fato é que o que puder conhecer da India – tão menos que você – me marcou profundamente. Quero um dia poder voltar…

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