Nosso primeiro Oscar?

João Luiz Vieira me apresentou a pesquisa de seu ex-aluno Felipe Haurelhuk, cuja monografia de conclusão de curso (TCC) foi sobre a presença do Brasil no Oscar desde 1929. Segundo o professor, Felipe “descobriu dados bastante interessantes, tudo muito bem documentado, incluindo pesquisas na biblioteca da Academy of Motion Pictures, em Los Angeles”. A meu pedido, Felipe escreveu esse artigo sobre as chances de nossa música faturar o primeiro Oscar para o Brasil. 

O primeiro Oscar para o nosso cinema

Felipe Haurelhuk

A proximidade do Carnaval e as altas temperaturas do verão abafaram um pouco a repercussão em nosso país da lista de indicados à 84ª cerimônia do Oscar, anunciada no último dia 24 de janeiro. Uma pena, já que a cinematografia brasileira finalmente está prestes a conquistar, depois de mais de oito décadas, seu primeiro “prêmio de mérito da Academia” (nome de batismo dos troféus). Ou melhor dizendo: nossa música popular, em uma irônica indicação que reescreve uma longa história de flerte brasileiro com o prêmio.

Desde o início das cerimônias, em 1929, 13 brasileiros natos ou radicados já tiveram a honra de terem seus nomes indicados pela Academia. E o que muito pouca gente sabe é que o nosso pioneiro não era diretor, roteirista, fotógrafo ou ator. Era músico. Em 1944 o mineiro Ary Barroso, responsável por partituras clássicas da MPB como “Aquarela do Brasil”, foi o primeiro brasileiro a ser reconhecido pela organização. Ele foi o responsável pela melodia da canção “Rio de Janeiro”, composta ao lado do norte-americano Ned Washington para o musical “Brasil – Encontro No Rio” (Brazil. Estados Unidos, 1944). Infelizmente trata-se de um filme de difícil localização, nunca lançado em DVD nem no mercado norte-americano e muito menos em território nacional. Mesmo assim, neste link http://www.youtube.com/watch?v=to4mXckO6d0 é possível conferir a canção, interpretada pelo ator mexicano protagonista, Tito Guizar. De qualquer maneira, Barroso entrou para a história do nosso “cinema” por essa marca. E hoje, 67 anos depois, estamos prestes a conquistar nossa primeira estatueta dourada, mais uma vez, pelo trabalho dos profissionais da música. Carlinhos Brown e Sergio Mendes foram indicados mais uma vez na categoria Melhor Canção, pela melodia de “Rise In Rio”, do longa-metragem animado “Rio” (Rio. Estados Unidos, 2011).

Sem escarcéu midiático ou otimismo infundado, e ao contrário de diversas outras oportunidades relativamente recentes, desta vez as possibilidades de êxito são realmente muito grandes. A junta de músicos da Academia (responsável pelas indicações da categoria) reúne-se na sede da entidade em Los Angeles entre os meses de Dezembro e Janeiro para ouvir as canções e assistir aos filmes elegíveis nessa categoria. Para este ano foram 39 composições que, durante o processo de avaliação, recebem uma nota que varia entre 6 e 10. Apenas trabalhos com conceito igual ou superior a 8,25 são considerados finalistas na categoria, que neste ano resultaram em “Rise In Rio” e “Man Or Muppet”, de “Os Muppets” (The Muppets. Estados Unidos, 2011), cuja melodia e letras são de Bret McKenzie. Ou seja, das quase quatro dezenas de canções elegíveis, apenas essas duas despertaram a atenção dos votantes, que nesta segunda rodada terão apenas tais escolhas para decidirem sobre a vencedora. Uma possibilidade de no mínimo 50%.

Para além da matemática, o histórico de canções premiadas na categoria sempre privilegiou trabalhos derivados de grandes musicais ou longas de animação: “Over The Rainbow” de “O Mágico De Oz” (1939), “Talk To the Animals” de “O Fantástico Doutor Dolittle” (1967), “Fame” de “Fama” (1980), “Circle of Life” de “O Rei Leão” (1994) e “You’ll Be In My Heart” de “Tarzan” (1999) são alguns exemplos disso. Se até aí a corrida parece empatada pelo fato de Os Muppets ser um musical de grande sucesso da Disney, o histórico recente da categoria mostra que o perfil dos vencedores vem se distanciando de composições melosas e piegas, como já foi o mote da categoria em alguns períodos do passado. Entre as vencedoras nos últimos dez anos estão duas canções de hip hop: “Lose Yourself”, de “8 Mile – Rua Das Ilusões” (2002) e “It’s Hard Out Here For A Pimp”, de “Ritmo De Um Sonho” (2005), uma canção “indiana” (“Jai Ho”, de “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2008) e até mesmo uma canção em espanhol: “Al Otro Lado Del Rio”, de “Diários de Motocicleta” (2004). Há uma mudança gradual no perfil das canções, sejam elas premiadas ou somente indicadas. E cá entre nós, a música de “Rio” é tecnicamente superior à dos Muppets. Portanto, o Brasil deverá finalmente colocar as mãos em um Oscar na noite do próximo dia 26 de fevereiro. E ironicamente, assim como há 67 anos, não pelo mérito de nossos cineastas, mas de nossos músicos.

Não posso deixar de citar, por fim, o quanto a figura de Carlinhos Brown é alegórica nessa provável conquista. Ao contrário de nossos representantes cinematográficos outrora indicados (Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno e Fábio Barreto, Fernanda Montenegro, Carlos Saldanha e o próprio Ary Barroso), Brown não tem suas origens fundadas em uma família de posses do Sudeste. Não faz parte da elite branca intelectual brasileira, que elege seus cânones culturais e possui os meios econômicos e políticos para entrar pesado no jogo comercial que também é o cinema. Negro, nascido nas periferias de Salvador, Brown é aquele que levou a influência do som afro baseado na forte percussão aos blocos de Carnaval da Bahia, ainda na década de 1980. É aquele que levou garrafadas por ter tido a ousadia de reproduzir sua música “de baixa qualidade” durante a programação do Rock in Rio 3. E que, ao lado de Sergio Mendes e da compositora norte-americana Siedah Garrett, provavelmente fará o Brasil finalmente receber seu primeiro Oscar pela excelência do trabalho.

Felipe Haurelhuk

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