Em busca dos espíritos da História

Sylvio Back reduziu O Contestado – Restos Mortais para uma versão mais palatável de 118 minutos, que deixa mais evidentes as qualidades do filme e dissimula melhor o seu aspecto mais discutível. Entre as qualidades, a maior delas é o uso sempre muito eficaz de uma dramaturgia dos depoimentos, que contempla aspectos contraditórios do tema abordado e produz no espectador imagens mentais fortes a partir de relatos expressivos e bem encadeados. (O filme entrou em cartaz ontem em São Paulo, já está há semanas em estados do Sul e chega ao Rio em 7 de dezembro).

Como já escrevi aqui há algum tempo, Back não tenta simplificar nem resumir didaticamente a história da Guerra do Contestado (1912-1916). Mais complexo e longo que o cerco a Canudos, o Contestado ressurge aqui através das falas de historiadores, jornalistas e idosos descendentes de testemunhas do conflito. História oral e formal ganham isonomia de tela, cada uma com seu teor de fabulação sobre os aspectos bélicos, políticos, sociais, míticos e místicos da guerra. Embora utilize aqui e ali material de arquivo, ilustrações e maquetes, o diretor pretende dar mais trabalho à imaginação que ao consumo do espectador.

O quadro bem fechado no rosto das pessoas dá conta do interesse do cineasta pelo discurso puro, em lugar das informações complementares que poderiam vir do corpo de quem fala ou dos lugares que os corpos habitam. Sylvio Back se concentra nas vozes e nas expressões faciais, o que fornece uma extrema concentração e reduz a possibilidade de dispersão. Talking heads do tipo hardcore, e estamos conversados.

Se o Contestado já tinha sido tratado pelo diretor como ficção mítico-histórica em Guerra dos Pelados (1970), o recurso a médiuns em transe estava presente no seu média-metragem (médium-metragem?) O Autorretrato de Bakun (1984). Em Contestado, Back entrevista “espíritos” da guerra encarnados em médiuns. Ele defende essa opção como uma instância poética: “um salto no escuro na invisibilidade de fatos e feitos primevos, eu diria, como se prestidigitação mágica fora rumo ao mais denso dos mistérios da alma humana!” (leia seu texto em resposta à minha primeira crítica, em 2010).

Revi o filme com a memória voltada a outras experiências de Back no entrelaçamento de documentário e ficção (Bakun, Cruz e Souza). Saí com a mesma impressão da primeira vez. Continuo achando que a participação dos médiuns não acrescenta qualquer camada, nem à evocação da história, nem ao engendramento cinematográfico de O Contestado. Mesclados a depoimentos comuns, sejam eles confiáveis ou não, os transes só fizeram criar um paralelo retórico com a intensa atuação de videntes e médiuns no próprio conflito, alguns deles chegando a liderar a comunidade de fiéis em certos períodos. Além disso, na maior parte das vezes aqueles médiuns parecem canastrões demais para que se acredite até mesmo que estejam em transe.

Sylvio Back gosta de combater o jogo de aparências da História com outro jogo de aparências, que é o do cinema. Nesse sentido, o fake viria como uma contribuição a que se acredite menos em tudo o que se ouve. No caso dessa intensa revisita a um episódio histórico, a evocação “espírita” revela-se um dispositivo arriscado, que pode se voltar contra o próprio filme.

Um comentário sobre “Em busca dos espíritos da História

  1. Pingback: Sylvio Back para rodar | ...rastros de carmattos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s