Tags

,

SANGUE DO MEU SANGUE é uma bela brincadeira de Marco Bellocchio com dois ícones do cinema transcendental: Joana d’Arc e os vampiros. Na primeira parte do filme, passada no século XVII, uma jovem freira é torturada para confessar uma suposta aliança com o demônio que levou um padre ao suicídio. O irmão do padre vai testemunhar a confissão, mas sua libido é mais forte do que os deveres familiares. Já aí Bellocchio confunde o sagrado e o profano, além de citar a Joana d’Arc de Dreyer.

Na segunda parte, ambientada nos dias de hoje, o mesmo mosteiro, depois convertido numa prisão, é habitado por um conde vampiro integrante de uma confraria, que não quer perder o imóvel para um especulador russo. Aqui Bellocchio assume a comédia e faz diversas referências mais ou menos cifradas à realidade italiana.

Alguns traços comuns ligam as duas épocas, mas não se trata exatamente de continuidades, e sim de um divertimento livre, um tanto aleatório e totalmente fantasioso. Talvez frustre algumas expectativas de entendimento, mas não decepciona quem espera de Bellocchio a costumeira inventividade e a espantosa sabedoria no uso da música.



De Copa do Mundo em Copa do Mundo, de 1982 a 1994, a história de O FILHO ETERNO vai sendo contada como uma sucessão de derrotas coroada por uma vitória épica. O best seller de Cristóvão Tezza chegou ao cinema em versão que enfatiza os aspectos melodramáticos em detrimento do que existia de mais complexo no livro. Tezza utilizou a autoficção para narrar a paulatina conversão de si mesmo de “filho eterno” (imaturo, egocentrado) em pai amoroso. O filme de Paulo Machline faz parecer que essa conversão se dá subitamente, após um único evento perturbador.

Não que a adaptação de Leonardo Levis e Murilo Hauser traia o essencial do que conta o escritor. A exposição das fraquezas, da impaciência e do desgosto do pai com o filho portador da Síndrome de Down, apelo maior do livro, está na tela em toda a sua amargura e crueldade. A questão, portanto, não é de literalidade, mas de tratamento. E um dos fatores que mais pesam contra o filme é o uso indiscriminado da música para supostamente inflamar as emoções. A trilha sonora ostensiva e invasiva acaba por empastelar diversas cenas e roubar sua força original. Além disso, os diálogos muitas vezes soam rígidos, assim como a marcação dos movimentos dos atores. Se a escalação do menino Felipe em suas diversas idades é bem resolvida, basta o monólogo de Débora Falabella (a mãe) sobre o aniversário de quatro anos de Fabrício para engolir toda a atuação morna de Marcos Veras no papel do pai.

O FILHO ETERNO é filme de família em vários sentidos. Trata da superação de um suposto inferno familiar e se dirige a um público-família unido pela comoção. O futebol, elo habitual entre pais e filhos homens, é metáfora adequada para uma história de abnegação e duras conquistas. Felizmente, encerrada no tetracampeonato brasileiro, bem antes do fatídico 7×1.